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Aqueduto

Aqui é por onde as palavras escorrem. Escorregam entre um degrau e outro da escada rolante quebrada. O sentido é de subida, portanto é uma escorregadela ascendente. Outro dia um motorista que guiou um Fiat 147 ano 80, disse que na descida o carrinho é espetacular. Parece mesmo que descer é mais fácil. Acho bem interessante as ruas planas. Nem subida, nem descida. Meu plano é ir armando as palavras com um equilíbrio distante e ir declamando em zig-zag. Perceba que o meu plano ainda é pé no chão. Pode ser cheio de buracos, as lombadas devem existir, mas bem leves em altura. Gosto das escadas que o meu amigo Paulo coloca encostadas nas árvores. Cada escada dele tem uma árvore particular. Encontrei na escola uma placa indicando que é proibido subir nas árvores do setor da infância. Ali é questão de segurança. Fico imaginando a quantidade de crianças que ficam loucas para dar uma subidinha. Daria pra ver o balanço, o trepa-trepa, a gangorra e o gira-gira, todos bem de cima. Meu plano é gost...

Fotografias

No caminho até aqui eu ando a pé no contra fluxo dos automóveis. Muitas buzinas nos mais diferentes timbres. Agudos e graves. Na hora me lembrei da teoria prática que fala que às quintas são mais congestionadas porque o pessoal trabalha presencialmente. Ontem o motorista do Uber acrescentou dizendo que em casa ele gasta mais comendo, gasta com Internet, gasta mais com energia elétrica e que as empresas descobriram mais uma vez como tirar vantagem. Como ele mesmo, gasta mais com a manutenção do carro, enfim. O mundo onde o capital vai sobreopujando o humano. Porém o humano resiste e insiste. Uma senhora usando muletas chamou um Uber e o motorista parou sem sair do carro. Nem precisei ver o esforço que ela faria só de observar ela tentando abrir a porta do carro. Dei uma corridinha, abri a porta, coloquei primeiro as muletas atrás do banco do copiloto e depois segurei a porta e ela se ajeitou no banco de trás do motorista. Agradeceu e sorriu. O motorista também agradeceu. Pesquisei porqu...

Óculos

Ontem uma aluna me perguntou se os meus óculos tinham grau. Raciocinei e percebi que ela havia achado os meus óculos estilosos. No começo da carreira o cantor e compositor Silvio Brito usava os óculos sem as lentes. Ele também achava estilosos os seus óculos redondos e até hoje ele os usa. Imagino que pelo avançar da idade, hoje eles tenham lentes com graus. O meu é verde e foi fabricado na Espanha, vendido em Portugal e trazido ao Brasil pela filha bailarina. Ela que já é mamãe de uma filha que nascerá em janeiro. Maria, condinome Mia. As lentes no meu caso são principalmente para que eu consiga desenhar, escrever e ler. Coisas que devem ser observadas de perto. Observo de perto os acontecimentos que vão se desenrolando nas séries de suspense, já que não assisto a TV aberta há anos. Algo que seja muito importante eu posso ver nas imagens e textos no Instagram. Você pode pensar que eu estou me alienando, mas não. Estou me defendendo de programas que mostram uma realidade ficcional prod...

Laboratórios

Lembrei do programa educativo: O mundo de Beakman. Programa dos anos 90. No começo era um cientista e um assistente. O fantástico Rato de laboratório. O Beakman ia explicando e o Rato ia colocando a mão na massa para que eu e a criançada entendêssemos a explicação. Lembrei porque no meu caminho encontrei um buraco na calçada. A primeira placa que o cobria estava jogada para o lado e deve ter sido chutada por um transeunte em transe. O buraco propriamente dito, ainda tinha por cima outra placa de madeirite e um pedaço de isopor. No dia em que o cientista foi explicar o que acontecia quando arrancávamos um pedaço da pele do nosso corpo, devido a qualquer queda ou atrito, o Rato usou um demolidor de parede para fazer um estrago no reboco e expor os tijolos. Depois disse que o nosso corpo age rapidamente para repor as células da pele. O Rato pôs-se a encher o buraco da parede com placas de papelão e rapidamente o reboco estava reposto, ou seja, o nosso corpo cria uma casca no buraco feito ...

Sinais

Cheguei correndo na rodoviária. Não porque tinha pressa, ou necessidade de sair correndo. Minha natureza é ser corredor, ser apressado, rápido. Isso, como diz o Munk no seriado, pode ser uma bênção, ou uma maldição. De alguma forma os dons do Mentalista também eram considerados pelos colegas como uma bênção, mas ele muitas vezes considerava uma maldição. Pessoalmente considero o meu correr uma bênção, já que os resultados me fazem muito bem. Fico feliz. Correndo, vi dois homens com deficiência auditiva discutindo por sinais. Um som vocal e muitos gestos. Os dois, moradores de rua e os dois mexendo os braços e as mãos numa italianice braba. Quando eu estava esperando o ônibus na rua Joaquim Floriano, dois moços com roupas surradas e mochilas, passaram por mim que estava sentado no banco montado pela construtora Sendin. O banco é pintado de preto e os dois moços estavam vestidos com preto. As mochilas também eram pretas. Com os dois em movimento, o importante é que um disse para o outro:...

Rodas vivas

Numa entrevista o genial bruxo Hermeto Pascoal disse que a vida como um todo, a vida do mundo e de todo mundo é circular. Cada um está sentado no centro do círculo. Vemos em cento e oitenta graus a nossa realidade acontecendo bem na nossa frente e ela vai aos poucos, passando pelas nossas costas e tende a ficar no nosso subconsciente. Ainda está caminhando, mas nós já vivenciamos e guardamos algo dessa experiência. No momento que os acontecimentos fazem os cento e oitenta graus atrás da gente, aquilo que é passado, retorna e temos a sensação que, de alguma, forma aquilo já foi visto e sentido. Achei essa visão totalmente crível. Aparece na minha mente, por exemplo, a velha questão da Moda que retorna com força. Nos anos setenta usávamos determinado ornamento, ele é esquecido pela mídia e pelas pessoas e de repente, mais que de repente, retorna e mais uma vez a maioria está usando e reverenciando o objeto. Não precisa ser um círculo vicioso, nem ocioso e muito menos oneroso. É Círculo V...

Caixas

Cá estou eu novamente na rodoviária de Sorocaba. O ônibus de dois andares já está estacionado na plataforma 5. A entrada dos passageiros neste tipo de busão é complicada mesmo. O motorista demora pra verificar as passagens e indicar se a poltrona fica em cima ou embaixo. E tem o povo que leva bagagens grandes e tem que colocar no compartimento destinado a esse fim. Demora mais um pouco, mas todos estaremos sentados e sairemos às seis horas. É só o busão estacionar e o povo já aglomera desesperado. Eu sentadão ao lado do catador de latinhas com o saco cheio. Hoje o motorista tem que ler o QRcode de cada passagem. O motivo desta escrita é colocar atenção a certos detalhes desta minha vida cotidiana. Ontem fiquei feliz quando estávamos trabalhando em dez painéis de papelão previamente desenhados com tinta látex preta. Estávamos, porque éramos eu e mais três alunos que se dispuseram a ajudar pelo gosto. Usamos cola quente para grudarmos tampinhas de garrafas Pet coloridas em lugares sortid...