Sinais
Cheguei correndo na rodoviária.
Não porque tinha pressa, ou necessidade de sair correndo.
Minha natureza é ser corredor, ser apressado, rápido.
Isso, como diz o Munk no seriado, pode ser uma bênção, ou uma maldição.
De alguma forma os dons do Mentalista também eram considerados pelos colegas como uma bênção, mas ele muitas vezes considerava uma maldição.
Pessoalmente considero o meu correr uma bênção, já que os resultados me fazem muito bem.
Fico feliz.
Correndo, vi dois homens com deficiência auditiva discutindo por sinais.
Um som vocal e muitos gestos.
Os dois, moradores de rua e os dois mexendo os braços e as mãos numa italianice braba.
Quando eu estava esperando o ônibus na rua Joaquim Floriano, dois moços com roupas surradas e mochilas, passaram por mim que estava sentado no banco montado pela construtora Sendin.
O banco é pintado de preto e os dois moços estavam vestidos com preto.
As mochilas também eram pretas.
Com os dois em movimento, o importante é que um disse para o outro:
Se você puder me ajudar, irmão.
Ele usou essa frase porque alguns passos antes o parceiro disse a ele que ainda tinha bolachas na mochila.
Eu preciso sempre estar atento aos sinais.
Antes de sair para a rua eu estava colocando uma estaca de bambu comprida num vaso com amoreira.
Primeiro tentei rodar o varão sobre a terra, mas não tive sucesso.
A terra estava durinha.
Momentos antes eu havia jogado fora uma faca de cerâmica que estava com a ponta quebrada.
No mesmo instante, voltei ao lixo para pegar a faca descartada e começar a fazer o buraco para que o bambu fosse fixado na terra.
Serviço feito, fui ao tanque, lavei a faca e ela voltou para o lixo dentro de uma embalagem de leite longa vida.
Há sinais por toda parte e eu devo correr sem sair do lugar para captá-los, traduzi-los e transformá-los em ações contundentes.
Eu me comunicava bem com dois alunos com deficiência auditiva em épocas diferentes.
A partir dos sinais gesticulados a gente chegava aos resultados desenhísticos que eu propunha.
Um deles tem uma irmã também com deficiência auditiva, que ficava brava quando eu instintivamente fazia sinais.
Acontecia porque ela lia meus lábios e para ela era suficiente, mas imagina se eu conseguia falar sem mexer as mãos.
Rio porque isso é impossível, a não ser que elas estejam amarradas por trás.
O vô da série Blue Bloods disse hoje que no passado ele havia feito coisas boas que agora estavam ultrapassadas, porém o neto mais novo enfatizou que tudo o que ele havia feito e faz, ainda vive.
Um Viva aos Sinais.
Hoje está muito na moda a Semiótica.
Penso que ela sempre esteva aí como força motriz da Arte.
Quero dizer que uma pedra não se relaciona com Outra sem que a gente queira fazer essa relação.
Humanos até criam sinais que alimentam um código a ser decodificado.
Você que me leu até aqui, a cada parágrafo está instigado a decodificar a minha linguagem.
Como eu já disse, isso é o que me faz feliz e a minha felicidade não almeja ser a mesma que a dos outros, mas se os outros ficarem tão felizes como eu fico, abra-te Sézamo
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