Todos
Ontem, mais uma vez ouvi numa fala dentro de um episódio de série, que não há como alguém conhecer o outro totalmente.
De repente o chão branco da sala de casa começou a ficar com manchas pretas.
Limpei.
Acordei e de manhã apareceram pequenos torrões escuros no chão.
Varri e joguei no lixo.
Mais tarde fui ver as solas do meu tênis novo e tive que lavá-las.
Ao fazer isso percebi que só estava suja a sola de um dos pés.
A esquerda estava limpíssima.
Ontem mesmo já havia descoberto onde eu havia sujado o meu tênis.
Ao entrar no carro, do lado do passageiro, tive que passar onde estava saltando a raiz de uma árvore presa na calçada.
Havia barro escuro ao redor.
Fico pensando que me apoiei na perna direita para que o pé esquerdo se apoiasse na soleira da porta.
Existem coisas que a princípio parecem misteriosas, mas depois de nos debruçarmos sobre elas achamos um sentido racional.
Não é sempre assim que acontece.
Existem muitos mistérios mesmo.
Penso que para nos auto conhecermos temos que investigar as nossas conversas internas.
Investigá-las a partir da compreensão dos resultados das nossas indagações pessoais que são intransferíveis.
Ficamos nos perguntando até tomarmos nossas atitudes.
Todas as ações que nós resolvemos aplicar em vivência e que com certeza afetam outros tantos.
Dessa forma me parece impossível que eu conheça totalmente qualquer outra pessoa.
Não vou comentar que nem eu me conheço totalmente porque não é verdade.
Conheço tudo de bom e tudo de mal que eu posso fazer.
É claro que sou abençoado por uma índole mais voltada a fazer o bem, mas nas minhas imperfeições, vez por outra sou mais impulsivo, um tanto agressivo e rude.
Estás vendo?
Nas minhas conversas internas eu reflito muito sobre essas imperfeições e tenho melhorado um pouco, o que também provoca uma melhora no sentido das ações benignas pelas quais tenho muito apreço.
A bênção que eu recebi me coloca a disposição para a ajuda, para o afeto e para o acarinhar.
Sou responsável por alimentar essa bênção o mais e o melhor possível.
Não sei se você reparou, mas externalizei as minhas situações, não para garantir a minha tese que é impossível conhecer totalmente a outra pessoa, mas para continuar o meu processo de autoconhecimento e ver se é possível você enriquecer o seu.
Meus dois pés do tênis novo estão muito limpos e o resto de terra está diluído no sifão do tanque.
Não é nada bonito fazer isso.
Eu deveria usar o protetor de ralinho e depois jogar todo o resíduo no lixo.
Veja que alguma preguiça é também reflexo da minha imperfeição.
Não é sempre, mas às vezes ela me assola.
Não é sempre e nem pra tudo, mas algumas vezes ela ganha a rodada.
Não me interesso por conhecer o outro totalmente.
Acho que sou assim também frente a leitura.
Muitas vezes aprecio o texto das orelhas da capa e da contracapa.
Pode parecer superficial, mas acredito que não.
Na mesma série novelinha de ontem, a moça realçava os aspectos e substâncias químicas que nos levam à aproximação dos outros.
Como eu não entendo nada sobre os detalhes, mas sei que substancialmente há a bioquímica, eu vivo me encantando com as relações humanas que buscam curar as doenças de todos nós.
Aquela que todos nós temos.
O cuidado curativo dos afetos.
Por isso valorizo demais a pedagogia proposta por Henri Wallon que pensa e trata a criança pelos aspectos biológicos, afetivos e intelectuais.
Novamente o que me inspirou foi um abraço lindo.
Até chegar aqui os meus pés pisaram suavemente sobre embalagens vazias, notas fiscais e poças d'água.
Mais tarde descalçarei
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