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Sons conhecidos

Comecei a digitar no celular e a cada letra que tocava eu ouvia o som. Toc, toc. Interessante transformar o som em palavras. É apenas um exercício, afinal nem sempre acontece da palavra ser igual ao som. Tic tic nervoso é famoso. Fazer um pic nic nem se refere ao som, pelo que eu saiba, mas o que sei é pouco. Bem-te-vi é bem parecido. Tô fraco da galinha d'angola é muito parecido e por aí vai. Ontem quem nos levou para casa foi o nigeriano Ethans. Ao perguntar-lhe sobre o seu nome ele foi logo respondendo que o nome tem a referência na colonização inglêsa no seu país de origem. Saiu de lá há 33 anos e adora o Brasil. Terra da multiplicidade, segundo ele e segundo eu também. Adoro, apesar que no mundo inteiro, tudo é grana e quase todo mundo corre atrás dela. Alguns nem correm e vão multiplicando a grana, sem olhar para a desigualdade tão próxima. Esperando o ônibus que me levou até o metrô, vi este adesivo colado no tapume no prédio em construção: Tudo é Grana. Já escrevi aqui, mas...

Ancião atômico

Andando eu vejo muitas pessoas e fico pensando em suas características individuais, a partir das suas vestes e dos seus andares. Já escrevi aqui que fico feliz em ver os senhores da minha idade vestindo jeans, camiseta e tênis. Acho interessante porque me passa a sensação de despojamento. Não tenho nada com isso, mas me deixa com vergonha alheia, ver que alguns usam aquelas bermudas compridas cheias de bolsos, meias curtinhas desaparecidas nos tênis de corrida. É um desgosto meu, a pessoa não precisa concordar e se achar que fica bem assim, que continue. Não gostei de me ver no espelho com aquele bigode branco. Observei que além de já estar mais velho, eu conseguia ficar mais velho ainda. Rio porque foi apenas uma impressão minha, mas ao chegar na primeira aula com a criançada, a querida Julinha me fez essa observação: Betu, você ficou mais moço sem o bigode. Fofa. Rio porque realmente não tenho nada a ver com o gosto pessoal do senhor que veste bermuda comprida com muitos bolsos. Poré...

Cinto de segurança

Eu sinto que acordar bem cedo com a frase da Adélia Prado é uma sensação eterna. A frase: O que a memória ama é eterno. Sensação de eternidade daqui pra frente. Prefiro pensar que não é apenas algo ancestral, mas fundamentalmente algo que acontece a longo prazo, daqui para o futuro. Claro que a memória nos remete a algo acontecido no passado, mas este efeito produzido pela frase, signiifica para mim que eu quero continuar fazendo a eternidade. Acontecê-la. Sempre remontando à questão da felicidade como uma coleção de momentos felizes, somos nós os produtores destes momentos. Posso proporcionar sorrisos intensos como a Adélia produziu em mim. Um conjunto de palavras que, uma grudada à outra, produz uma energia vital incalculável. Sou grato por ter sido dotado dessa característica. Ser capaz de extrair dessas histórias uma fantástica gama de coisas boníssimas. Ontem conheci a nova professora de Desenho dos alunos do primeiro e do segundo ano. Carol. Ao me apresentar, a minha turma já est...

Decolar.com.tudo

Com a companhia da amada e do som do Abyss, que não conhecia até entrar neste aeroplano. A decolagem já havia sido ensaiada e agora posta em prática. Sendo a prática mais tranquila que o pensamento mágico. Um plano traçado desde o nascimento, desde os quinze dias de vida. Claro que a dona Anna estava passando por um momento delicado e foi a minha tia a nos socorrer. Socorrer-nos, dona Anna, Seu Jorge e eu. Em Regente Feijó meu nono e minha nona já educavam duas netas queridas. Delicadezas da senhora Anna que me ensinou como funcionavam as proparoxítonas depois das sílabas e das tônicas. Assim a toada foi sendo composta para que sempre pudesse ser recomposta e reposicionada. Uma vida de experiências inovadoras que vão se justapondo e se sobrepondo. Dei uma olhadinha pela janelinha do outro lado e o por do sol ficou ainda mais magnífico aqui do alto. Impossivel lembrar da experiência dos quinze dias. Eu era muito criança, mesmo que eu ainda permaneça um crianção desenfreado. Já sinto o c...

Calçada onda

Encontrar nas ruas de Lisboa algumas calçadas com a marca de copacabana foi interessante. Encontramos na neta Maria uma maravilha em toda a sua grandeza. Uma atendente do mini shopping resumiu de forma categórica: Ela é toda bem feitinha. Linda. Acabamos de ouvir três adjetivos da maravilha. Simpática, Linda e Brava. Na maior parte do tempo ela tem um temperamento encantador. Um pastel de nata de Belém, embora seja delicioso, não chega aos pés da sua doçura. Encontramos em Lisboa, a filha querida, o genro muito além da inteligência, sendo que os dois nos orientam na caminhada, guiados pela princesa cor de rosa. O rosa choque só acontece quando ela quer outra atenção, porém é rápida esta passagem porque ela se contenta com qualquer brincadeira e chiados. O que acontece é que ela necessita de muito movimento e histórias contadas aos cantos. Nem eu, nem a filha Maira, sabemos de quem ela puxou tal eletricidade. Rio porque estamos, eu e ela a movimentar as mãozinhas e os pezinhos. A marca ...

Lá Rá Rá

No caminho encontrei um moço sentado na beirada da entrada de uma loja fechada, com a cabeça baixa, os cotovelos nos joelhos e numa das mãos um saquinho de MMs com amendoim. Pareceu-me com uma triste expressão. Do outro lado da rua as duas demolições das duas esquinas estão encerradas. Tudo plano já que o plano é a construção de dois edifícios. Talvez o moço só estivesse cansado e não tinha forças nem para, com a outra mão, pegar uns confeitos dentro do saquinho. Em Portugal é só Saco. Saco pequeno, médio e grande e todos pagos com centavo de euro. Quando entrei numa loja de armarinho, administrada por uma senhora que usa uma muleta canadense, comentei a respeito do Saco. Ela gentilmente me disse que o português falado no Brasil é muito mais melódico, aveludado e mais bonito. Além disso garantiu que o atendimento dos portugueses é mais bruto, os ingleses são mais fechados, porém muito educados e os franceses são arrogantes. Rio porque sei que existem pessoas com todas essas caracterist...

Números flexíveis

Número um. Eu não nasci para resolver os problemas do mundo. Esse mundo maluco. Claro que eu resolvi me isolar das televisões e das notícias do Google. Opção que me faz observar melhor os meus pequenos problemas e os dos meus próximos. Desta forma gosto de estar professorando Arte no Colégio e andando pelas ruas e avenidas, até dentro de casa. Problemas que aparecem das mais variadas formas e a primeira forma de confronto meu com eles é me afastar de coisas mesquinhas e insignificantes. Pessoas são muito importantes neste processo. De preferência pessoas sensiveis e interessadas em coisas ainda mais sensíveis e processuais. Não precisamos de tudo com resultado imediato. Acabei de precisar comprar um cabo USB/C branco e de cara encontrei com o dono e vendedor, desde que a lojinha era pequena. Ele me recebeu calorosamente, mas estava atendendo e visivelmente contrariado. Ele disse para a moça: Existe uma diferença entre estar sério e focado do que estar emburrado e bravo. Comprei o cabo ...