Ilustrativo verbal

Essa eu não posso deixar passar, tamanha é a intensidade do interessante.
Sentei e pus os braços no balcão da lanchonete da rodoviária.
Pedi o meu tradicinal café com leite e pão com manteiga.
Sobre o balcão estava o cardápio com os novos lanches.
Cardápio plastificado, bonito.
Na semana passada já havia visto o banner anunciando que a lanchonete agora também é uma hamburgueria.
Empregaram até um jovem senhor como chapeiro.
A Rosa é a funcionária centenária da lanchonete do Seu Izidro.
Na parte inferior do cardápio, depois das fotos lindíssimas dos sanduíches,  está escrito:
Imagens ilustrativas.
Elogiei para a Rosa o cardápio e os sanduíches e contei pra ela sobre o filme que o Michael Douglas interpreta o sujeito que surta, pega uma metralhadora, anda pela cidade e entra numa lanchonete.
Vê as imagens lindíssimas dos sandubas e fala alto e forte:
EU QUERO UM IGUAL A AQUELE!
E como fazer um exatamente como aquele?
Quando acabei de contar a Rosa acrescentou:
Hoje até nós, as pessoas, somos imagens meramente ilustrativas.
Ela usou o Meramente, o que é sensacional.
Maravilhosa a observação.
O exemplo que ela citou estava relacionado aos apps de namoro.
O ex marido de uma amiga dela combinou um encontro num restaurante chique e quando encontrou a mulher sentada na mesa reservada teve uma surpresa.
Pediu licença para ir ao banheiro, ligou para a filha e pediu encarecidamente para que ela ligasse para ele inventando uma desculpa para deixar o recinto.
Tenho certeza que o oposto também é verdadeiro e mais dramático.
Imagina se eu entro num desses apps e coloco a foto de um deus grego como sendo a minha e a outra pessoa encontra este ser careca e bigodudo.
Um espanto.
Rio porque peço para você imaginar a cena olhando da calçada da praia.
Eu em pé na areia, vestindo apenas a minha sunga azul marinho com as laterias cor de laranja.
Santo Deus!
A própria visão do inferno.
Rio novamente porque já são difíceis os relacionamentos ao vivo, imagine a pessoa esperar o Bred e encontrar o Costinha.
Porém nós sabemos que esta questão da aparência nas redes antissociais é só um detalhe.
Acontecem coisas bem piores nesta terra sem leis.
Nâo sei se é a minha idade, creio que não, mas não me interesso por esses aplicativos, nem se eu precisasse.
Da mesma forma que prefiro os sons das pessoas, também prefiro o cara a cara, o olho no olho e o abraço apertado.
O social já não é tão fácil, requer confiança, sinceridade, carinho e afeto.
Quase sempre eu vejo, ouço, ou leio nas redes, alguém falando sobre nunca conhecermos o outro integralmente.
E é muito difícil mesmo, para não dizer impossível.
O autoconhecimento já é um desafio, imagine conhecer o outro.
Temos indícios, temos lampejos de conhecimento, mas o que gruda é a afinidade.
Para mim a afinidade de gostos e crenças é essencial.
Como que eu posso me afinar com alguém que não comunga com as coisas artísticas, a criatividade e os fazeres?
Fazemos parte de um time.
Não significa que somos absolutamente iguais, mas estamos atrás das mesmas sensações, bonitezas e até as angústias de quem faz da Arte uma doutrina cotidiana.
Nossa imagem não é meramente ilustativa, até quando damos um prompt para a inteligência artificial, afinal, quando vemos um resultado que ela nos propõe, que não satisfaz o nosso interesse, imediatamente a gente descarta.
E quando nós mesmos, com as nossas próprias mãos damos origem a uma imagem, jamais ela será meramente ilustrativa.
Ontem chegou a quinta tela e ela ainda está branca.
A ilustrarei com os elementos que me dizem respeito e tenho certeza que as pessoas precisarão cavar fundo e encontrar no conjunto as suas próprias reflexões


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A saga das palavras

Todos

Rima