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Diferença

Frequentemente sou levado a refletir sobre a minha arrogância. Penso se não é arrogância eu ver tão claramente alguns aspectos interessantes de todos os assuntos. Explico: A palavra interessante vem do interesse. Tenho interesse sobre as entrelinhas de todos os assuntos e na minha arrogância, imagino que todos os outros deveriam ter o mesmo interesse, afinal, esses detalhes me enchem de muita Alegria e Prazer. Porém a Massa - o termo não é meu - tem quase que um total desinteresse sobre entrelinhas e detalhes. Os assuntos são normalmente banais, corriqueiros, de senso comum, sendo que li outro dia um filósofo escrevendo que uma parte considerável de pessoas dá pitacos e palpites sobre assuntos que nunca estudaram e não procuram aprofundar-se. Volto à minha arrogância. Há tempos venho pensando que vivo em Matrix, um mundo paralelo onde as coisas que me animam e me deixam feliz fazem pouco sentido prático para muitos. Depois de tantas experiências comecei a considerar o fato de tudo isso...

Vídeo Game

Os dedos ágeis do menino aqui ao lado agilizaram minha vontade de escrever. Direita, esquerda, para cima e para baixo e os dedos percorrem a tela pequena do celular. Lembrei do episódio do CSI onde o sujeito descobre a senha do celular do moço com o corpo estendido no chão, através da gordura do seu dedo escorregadio impressa na tela. O personagem do jogo do menino, salta para tentar alcançar de cabeça a bola vinda do lateral direito. Já o meu jogo não tem personagem, tem balas e doces que, de três em três, dão espaço para os outros doces que vêm da parte de cima do tabuleiro. Ele tem que acertar o gol e eu tenho que destruir gelatinas. Falando em destruir gelatinas, a minha hérnia de disco, mais o nervo pinçado não me dão mais tantos problemas. Problema mesmo, nessa última fase, é destruir as bombas que começam a aparecer já piscando no número três. Haja brigadeiros e listrados justapostos a envelopinhos de balas para concorrer com essas bombas ligeiras. Enfim, ao meu lado o moço ...

Expectativas

Sob alguma perspectiva a expectativa ativa o pensamento mágico. Alguns especialistas dizem que o pensamento ansioso tende a imaginar catástrofes, coisas ruins e tudo de mal que possa acontecer. Um pensamento fantasioso, embora a fantasia possa ser também algo belo, pra frente, de Vanguarda. O Pensamento Mágico é uma mistura do ansioso com a fantasia bonita e moderna. Nas entrevistas e reportagens o pensamento mágico é quase sempre vinculado à pessoas fora da casinha. Parece-me mais coisa de Artista. De qualquer forma o que me motiva o texto é estar sempre me inveredando pelos pensamentos. Por todos eles dada a minha eletricidade, também conhecida popularmente por ansiedade. Muitas vezes concordo com os especialistas e mesmo que tudo indique a boniteza, eu acho um jeito de mirar a possibilidade do infortúnio. Acabo de escrever essa frase e rio. Afinal, os meus pensamentos ansiosos não são tão catastróficos e é mais rara ainda a minha mira no acontecimento ruim. O meu pensamento agora se...

Sinais

Hoje escreverei sobre sinais. Dentro do ônibus circular que está me levando pra casa, o moço do caixa, também conhecido como cobrador, bate uma moeda no cano de metal e o motorista entende que é para fechar a porta de saída dos passageiros. Chico Bosco nos mostrou que a maioria de nós dá palpites muito antes de saber mais sobre as questões envolvidas. Fala e emite opiniões sem aprofundar-se sobre o assunto. Sinal de despreparo. Ao atravessar a rua que me leva até em casa, depois de comprar filõezinhos na padaria, a motocicleta me dá sinais de que a pessoa que a pilota deseja ardentemente ter uma morte rápida e assustadora, já que empina a motocicleta passando no sinal vermelho. Dizem que o vermelho é sinal de paixão e portanto, aquecimento, fogo. Aqui fora faz quarenta graus, fogo, aquecimento, forno. Logomarcas nos dão o sinal do significado do empreendimento. No caso de uma loja de bolos caseiros que fica ali do outro lado da rua eu tenho dúvidas sobre a autoria da obra. Várias pesso...

Espelho

Acabo de me ver no vidro da porta do trem do metrô. Eu me posiciono ereto com a minha mochila preta com pouquíssima coisa dentro. Na simplicidade do momento eu me achei bonito e claro, me bateu uma vontade estética de escrever. Inscrever-me. Saiba que eu ia escrever: Eu ATÉ me achei bonito, porém eu me achei bonito mesmo, a ponto de banir esse ATÉ por algum tempo. Até que sabe? Acho interessante alertar que a ideia desse texto não é exaltar a minha boniteza. Atrás do meu reflexo no vidro do trem, eu vejo um moço com os fones de ouvido sem fio com as luzinhas verdes piscando. Achei diferente. Nunca tinha visto as luzes, essas dos fones. Pensei que acho bonito, mas estranhamente prefiro fones pretos, com os fios também pretos com aquela espuminha protetora. Todas as vezes que penso sobre isso fico avaliando se é uma questão de geração e consequentemente surge na minha cabeça a lembrança da expressão Conflito de gerações. Desde muito criança essa ideia nunca se encaixou na minha vivência....

Ossos

Olho para o lado e um moço passeando com o seu cachorro acelerou o passo e no mesmo instante falou alto: Vamos achar a mamãe! Minha mãe faleceu no dia vinte e três de julho e não sei porque cargas d'água pensei que foi num dia dois. Coisas que ficam ancoradas na minha cabeça como símbolos, resíduos, memórias fantásticas, ou falta de senso mesmo. A plaquinha de bronze no gramado do PAX foi o que me salvou. Recebi a fotografia das duas plaquinhas coladas na pedra e lá estava escrito: 27/07/2023. A jovem senhora japonesa se levanta para colocar o cinto de segurança na mãe que está sentada na poltrona do corredor. A jovem senhora está do lado oposto e o fato dela se levantar nada teria de maravilhoso, não fosse a combinação de estampas. A camisa preta com corações vermelhos, a jaqueta azul escuro com rosas feitas num Pink exótico, mais a calça completamente recheada por retângulos sobrepostos e justapostos em composição abstrata. Uma festa. A Festa que a torcida do Fluminense fez ontem...

Bus das 14e15

Cá estou eu a pensar sobre nós, os ansiosos. Interessante notar que a minha observação me parece mais suave que a minha compulsão por movimento. Quem me conhece vai questionar ativamente essa minha afirmação. Com muita razão, provavelmente, afinal eu acabei de falar que já havia escrito a partir de um fato muito semelhante e aqui estou eu escrevendo sem parar. O tema é a fila dos idosos, ou preferenciais. Eu mesmo começo a esboçar um sorriso nessa face já com seus pés de galinha, quando resolvo escrever. Lembro da menininha que entrava na minha sala de aula e eu ajoelhado para ficar na altura dos seus olhos, a ouvia falar: Betu, que lindas essas linhas na sua testa. Eu já pensava naquela época como seria quando ela fosse mais velha e descobrisse que as linhas lindas são chamadas de rugas. Não demorou nada e hoje ela é uma mulher que surfa literalmente, além de ser Barista. De volta à fila dos idosos, mas já sentadão na poltrona do Cometa, tenho certeza que a senhora postada à minha fre...