Espelho

Acabo de me ver no vidro da porta do trem do metrô.

Eu me posiciono ereto com a minha mochila preta com pouquíssima coisa dentro.
Na simplicidade do momento eu me achei bonito e claro, me bateu uma vontade estética de escrever.
Inscrever-me.
Saiba que eu ia escrever:
Eu ATÉ me achei bonito, porém eu me achei bonito mesmo, a ponto de banir esse ATÉ por algum tempo.
Até que sabe?
Acho interessante alertar que a ideia desse texto não é exaltar a minha boniteza.
Atrás do meu reflexo no vidro do trem, eu vejo um moço com os fones de ouvido sem fio com as luzinhas verdes piscando.
Achei diferente.
Nunca tinha visto as luzes, essas dos fones.
Pensei que acho bonito, mas estranhamente prefiro fones pretos, com os fios também pretos com aquela espuminha protetora.
Todas as vezes que penso sobre isso fico avaliando se é uma questão de geração e consequentemente surge na minha cabeça a lembrança da expressão Conflito de gerações.
Desde muito criança essa ideia nunca se encaixou na minha vivência.
Os artistas mais velhos sempre  me foram apresentados e sempre me ensinaram muito, até sem saber que estavam a me ensinar.
Sempre tomei gosto por aprender e calculo que esse gosto me impulsionou a querer ensinar, compartilhar, caminhar junto.
Meus professores hoje são meus amigos e companheiros de vida e trabalho.
Vida também vivida através desses meios digitais maravilhosos onde a gente apresenta e é apresentado.
O meu reflexo no vidro não mostra o Eu todo, é um reflexo, um instante que não apresenta o Eu registrador de linhas no plano, por exemplo.
Eu gosto desse caminhar diferentão, que me faz misturar com todos os que se animam com o fato de se acharem ET.s num mundo que aceita bem a normalidade.
Acabo de escrever o verbete NORMALIDADE e recomeço a refletir sobre o termo.
Eu sou extremamente Normal, certinho, bem comportado e mesmo assim me sentia um ET.
Sim, me sentia, afinal depois de tanto aprendizado sei que por onde eu caminho, a poética é muito clara e precisa.
Aquilo que é claro como a edição que tive que fazer quando me fotografei no vidro.
A foto ficou bem escura e para que aparecesse a minha figura mais clara tive que usar o recurso de edição.
Claro que eu observo muito bem as minha profundas imperfeições,  mas faço da desconstrução delas um objetivo no meu pardo a passo.
Acho bonito saber do meu imperfeito, porém acho lindo demais tudo de bonito que eu posso distribuir, partilhar.
Acho imperfeito demais, colegas da faxina me dizerem com tristeza que é a minoria que os cumprimenta, ou param um instante para conversar, ou pelo menos apertar-lhes as mãos.
A pergunta insistente é:
Essa é a tal Normalidade?
Ontem, passeando pela rede social encontrei Paulo Freire na frase:
Vivo para que a justiça social venha antes que a caridade.
É imperativo que a desigualdade social seja estreitada, reduzida, seja justificada, posto que a miséria é grande e não pode ser tratada como Normal, ou coisa de desocupados, como pregam alguns, orientados pela ganância.
No reflexo vejo a gana, a vontade e a aptidão pelo serviço.
Ser viçoso na vivência do contato, com o tato apurado para a junção, a justaposição, o afetuoso estado de ser mais do que ter.
Ao meu lado sentou-se um Mestre de Obras.
Estudou até o sexto anos e sabe bem mais do que eu e o meu reflexo.
Aprendo muito sobre construção civil e ensino um pouco, já que a conversa começou porque ele adora projetos suas realizações, assim como eu.
Assim como eu, alguns.
Nosso projeto é inacabado e vamos construindo aos poucos, no passo a passo de andar em círculos enormes, da forma como me orientou o albino Hermeto.
Um círculo tão grande que eu, sentado numa cadeira que está no centro, vejo daqui a pouco as coisas que antes estavam às minhas costas e assim por diante.
Claro que a minha cadeira deve ser giratória.
Acabo de enfrentar o espelho do banheiro, afinal já cheguei em casa e ali meu reflexo não é nem mais bonito, nem mais feio.
Sou eu.
Num apronto para avaliar o desempenho dos mais jovens.
Artistas que como eu, caminham juntos nesse círculo enorme e aconchegante

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