Ossos
Olho para o lado e um moço passeando com o seu cachorro acelerou o passo e no mesmo instante falou alto: Vamos achar a mamãe!
Minha mãe faleceu no dia vinte e três de julho e não sei porque cargas d'água pensei que foi num dia dois.Coisas que ficam ancoradas na minha cabeça como símbolos, resíduos, memórias fantásticas, ou falta de senso mesmo.
A plaquinha de bronze no gramado do PAX foi o que me salvou.
Recebi a fotografia das duas plaquinhas coladas na pedra e lá estava escrito: 27/07/2023.
A jovem senhora japonesa se levanta para colocar o cinto de segurança na mãe que está sentada na poltrona do corredor.
A jovem senhora está do lado oposto e o fato dela se levantar nada teria de maravilhoso, não fosse a combinação de estampas.
A camisa preta com corações vermelhos, a jaqueta azul escuro com rosas feitas num Pink exótico, mais a calça completamente recheada por retângulos sobrepostos e justapostos em composição abstrata. Uma festa.
A Festa que a torcida do Fluminense fez ontem, após a conquista da Copa Libertadores da América.
Hoje faz um dia lindo, com um céu azul sem nuvens e um sol ameno, que faz ressaltar o vento frio que vem do ar condicionado do ônibus intermunicipal.
Estou a pensar que eu incomodo bastante, agindo sem dar quase nenhuma importância para detalhes que realmente me interessam pouco, ou que não causam transtornos maiores a outrém.
Adoro essa palavra, outrém.
Enfim, penso que essas pequenas coisas, ou esses pequenos problemas devem ser resolvidos por quem os sentem.
Incomodou demais?
Vai lá e resolve, porque de outra forma, eu que estava pensando como resolver essa falta de luz, ou como vou entrar com uma petição para ser ressarcido pelos meus prejuízos, fico a ter milhões de coisas para resolver ao mesmo tempo.
Consigo resolver, mas a idade já me coloca em situação de uma certa preguiça.
Muitas amigas e amigos dizem que gostam mais de animais do que de certas pessoas.
Eu gostei de uma fala que ouvi numa reunião pedagógica que falava sobre o professor ser condenado à esperança.
Tenho esperança eterna nos momentos, assim como leio quase todos os dias sobre a Importância do Agora.
Penso que sempre há um Agora para todo mundo.
Um Agora onde aquela pessoa se redime de um erro, um Agora onde o outro tem um insight, um Agora bonito, que se sobressai à feiura de um momento de ira.
Agora ainda estamos na Marginal Pinheiros, o que me remete à minha cidade Natal, Curitiba.
Paraná, terra das araucárias.
Para mim sempre pareceram castiçais de muitas velas.
Depois daquela tempestade de vento fomos recebidos pelo casal amigo, com luz de velas, mas a luz mesmo vinha dessas duas personalidades solidárias, artísticas, geológicas e amorosas.
Na semana passada me interessei pela fala de uma aluna que me alertou sobre os julgamentos.
Interessante.
O que nós outros temos que julgar atitudes, escolhas, ou quereres de outrém?
Já temos bastante trabalho e gasto de energia fazendo as nossas escolhas.
Tudo isso me parece óbvio, mas se assim fosse, os dramalhões e programas policiais não fariam tanto sucesso.
Não é óbvio.
Será que a mamãe foi encontrada?
Se eu pudesse sairia do ônibus Agora, em movimento, empunhando placas e cartazes, contra tamanha desigualdade social
Comentários
Postar um comentário