Bus das 14e15


Cá estou eu a pensar sobre nós, os ansiosos.
Interessante notar que a minha observação me parece mais suave que a minha compulsão por movimento.
Quem me conhece vai questionar ativamente essa minha afirmação.
Com muita razão, provavelmente, afinal eu acabei de falar que já havia escrito a partir de um fato muito semelhante e aqui estou eu escrevendo sem parar.
O tema é a fila dos idosos, ou preferenciais.
Eu mesmo começo a esboçar um sorriso nessa face já com seus pés de galinha, quando resolvo escrever.
Lembro da menininha que entrava na minha sala de aula e eu ajoelhado para ficar na altura dos seus olhos, a ouvia falar: Betu, que lindas essas linhas na sua testa.
Eu já pensava naquela época como seria quando ela fosse mais velha e descobrisse que as linhas lindas são chamadas de rugas.
Não demorou nada e hoje ela é uma mulher que surfa literalmente, além de ser Barista.
De volta à fila dos idosos, mas já sentadão na poltrona do Cometa, tenho certeza que a senhora postada à minha frente há meia hora, ainda está parada na frente do moço que a atende pacientemente.
Para não dar voltas sobre o mesmo assunto, hoje o que pesa para a senhora é o valor da multa que ela tem que pagar para conseguir outra passagem.
Explico.
Ela com certeza perdeu o dia da passagem comprada online e queria, bem na minha frente, conseguir outra passagem para agora, Já.
Esse agora, pelo andar da carruagem, vai até amanhã cedinho.
As questões que me afligem são duas.
A primeira é que os doze passageiros não preferenciais, menos um, já foram atendidos e eu permaneço esperando a questão da senhora ser resolvida. A segunda é sobre a questão em si.
A porcentagem da multa que ela tem que pagar para conseguir outra passagem.
Ela garante que ouviu falar que são cinco por cento e o moço atendente diz que são treze.
E eu só na observação suave, mas já irritado, vejo que ele coloca as informações na tela do computador e o mesmo responde ser impossível resolver a questão se ela não desembolsar os treze por cento.
Na terceira vez que ele tenta, talvez por providência divina, ou pela observação atenta do último passageiro não preferencial, esse vira pra mim e diz: Por favor senhor, pode passar na minha frente.
E eu descobri algo que há muito já havia  descoberto.
Formas de alguns senhores falantes serem atendidos:
A fisionomia da moça traduzia a sua intenção.
Ela certamente pensou:
Esse senhor prioritário é ranzinza e turrão.
Veio pra minha fila e nem tem idade pra isso.
Aahahahahahaha
Um atendimento sem sorriso, suavidade, ou gentileza, porém eu continuei empostando a minha voz:
É no crédito, por favor.
E ela do outro lado do vidro:
Débito?
E eu:
Não querida, no crédito, por favor
E ela comcluiu provavelmente desgostosa pelo querida:
É plataforma três, ou quatro.
E é catorze e quinze, viu?
Ahahahahahahaha
Preferi o sorriso do moço que me cedeu o lugar.
A senhora da multa?
Ainda está a espera do atendente baixar a multa para cinco por cento.
Encanta-me a obstinação de algumas pessoas pelo desconto, pela ânsia desenfreada pelo dinheiro, pelas contas e tudo isso sem notar o quanto ficaram mais ricos, ou mais pobres com o desgosto da encrenca.
O quase inacreditável é o quanto eu gosto de ganhar tempo com essas coisas, sabendo que essa é só mais uma expressão idiomática: Ganhar, ou perder tempo, já que o tempo do Caetanear é tudo isso junto e misturado.
O teto da rodoviária de São Paulo é muito semelhante a do Terminal
São Paulo e do Terminal Santo Antônio de Sorocaba.
Um forno nesses trinta e sete graus.
Barracão de zinco onde fazemos furos para que as estrelas salpiquem nosso chão, que por sinal é o mesmo onde anda estacionada a senhora dos cinco por cento, ou treze

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