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Manifesto

Ontem, assistindo a terceira temporada de uma série de ficção científica percebi algo que parece tão óbvio. As questões são sempre atravessadas pelos conceitos do Bem e do Mal. Os conceitos e suas dúvidas. Nada além do que a vida como ela é. E é aí que eu me envolvo numa dúvida saudável, assim como é a proposta da série. O suspense, que está na suspensão, na elevação da dúvida e não na sua retirada, como se quiséssemos consertar tudo. As coisas estão acontecendo a partir de Visões catastróficas, mas sempre dão soluções amistosas e felizes depois de realizadas as ações propostas pelos enigmas dos Chamados. As Visões. Os personagens, as personas, nós mesmos, começamos a questionar se a origem de tudo está no mal, ou está no bem. O meu resumo, enquanto escrevo essas mais ou menos razoáveis traçadas linhas, é que essas são nossas questões mundanas, regadas sempre a uma dose de Mistério. Tudo fazendo parte daquilo que nos é colocado para resolvermos, ou deixarmos barato. Porém, nunca nos é ...

Relíquias

Estamos arrumando o apartamento e nos desfazendo de algumas várias coisinhas. De repente, sobraram dois porta-retratos que podem virar quadros e serem pendurados na parede. Iam parar na garagem, mas eu tinha certeza que iria doar para dois alunos artistas durante a semana. Trouxe as duas molduras há duas semanas e as deixei repousando na mesa redonda da sala sorocabana. Não foi surpresa e nem fui surpreendido quando uma aluna do Oitavo ano fez um desenho que ela amou. Ficou tão feliz, de uma felicidade pulsante, que imediatamente me veio à memória a Moldura branca plana. Garanti que iria levar no dia seguinte para emoldurarmos a sua alegria. E assim o fiz. Ela nem imaginava que eu realmente ia levar o mimo e se emocionou com o feito. Agradeceu como se fosse uma relíquia memorável. E é. Mais emoção aconteceu nessa segunda. A proposta era que os alunos passassem canetinha num dos dedões da mão e imprimissem a Digital no papel. A partir daí criariam sobre a impressão usando linhas formas ...

Personas

Ontem observei uma moça com um coque na cabeça. O importante mesmo foi que estávamos sentados numa mesinha e ela estava na mesinha na nossa frente. O que me chamou à atenção foi a postura. Completamente diferente da minha. Ela estava ali para relaxar de um dia estressante. Sentada, esticou as pernas e não comprou nada na Baccio di latte. Havia comprado coisas no mercadinho e trouxe tudo num saquinho plástico para colocar sobre a mesinha. Primeiro retirou dali uma daquelas embalagens cilíndricas de batatas fritas. Cada círculo de massa de batata foi degustado com muita tranquilidade. Depois abriu com a mesma delicadeza o frasco de chá gelado. Tampa laranja. Nosso café expresso com um potinho de gelatto estava uma delícia, tamanha a surpresa do enfeite e do deleite. A moça deve ter ficado ali com suas delicadezas depois da rudeza do trabalho diário. Com certeza não arredou o pé do relaxamento. As três meninas amigas do terceiro ano, incluindo a neta Alice, levaram a tarefa do colégio em ...

Mancha

A mancha de óleo fino no chão da garagem não tem a forma de um coração. Essa frase visa estremecer a ideia de que tudo tem a ver com conexões astrais. Tudo não, mas como é bonita a sequência de conexões. Essa vida é essa que está em transcorrência e nos faz cruzar com as mais diferentes pessoas e nos aproximarmos e nos conectarmos com algumas que, de uma forma ou de outra, nos são quimicamente significativas. Outra ideia é essa que nos fala da química. Eu falo da eletricidade. Pode ser a conexão de todas essas naturezas. Volto a ideia da forma da mancha pra salientar que tudo isso pode ter natureza físico-química. Ou seja, natural mesmo. Vinda da natureza dessa vida que nos coloca como pensantes, afinal sentimentais somos nós, as plantas e os animais. Humanos, flora e fauna, sentem. O sentir nos move à percepção e ela às nossas ações contundentes, ou meramente instintivas. Um menino acabou de me alcançar correndo só pra me dizer quem ele era. Filho gêmeo da garota amiga de profissão qu...

Névoa breve

O trânsito intenso em São Paulo é suavizado pela conversa com o Alexandre. Motorista há 26 anos na empresa. O filho mais velho é motorista e o mais novo cobrador. A esposa também é motorista. Moram no Capão. Morou em Arapongas assim como meus tios e minhas primas. Tio Jamil é conhecido como Turco. Erro daqueles que pensam que a Turquia é Árabe. Árabes somos Cury, de ascendência libanesa. Meu pai Jorge, no Paraná, também era chamado de Turco. Em Sorocaba ele era Mestre. Grande zagueiro do time de futebol de Regente Feijó e o único do qual o meu artilheiro Tio Zezé tinha medo de enfrentar. Soube há pouco tempo que Jorge se aventurou na Rádio e deve ser daí que todas as atendentes de supermercado me perguntam se eu sou locutor. O guarda particular que toma conta da portaria do Colégio quando me encontra na entrada já vem dizendo: Olha o locutor aí e eu respondo empostando a voz: ZYz 934 Rádio Colégio Ser FM. Ele fica todo feliz. Andando na avenida Paulista eu já tive alunos gritando: Fala...

Chão

Hoje resolvi caminhar olhando mais para o chão. Vi tampinhas de garrafa, um pedaço de barbante, uma moeda colada na calçada. Sei que está colada porque resolvi dar um chutezinho. Um adesivo de serviço de hidráulica, uma carta de pokemon, um daqueles lacres de latinha, um recibo vencido de loteria da mega sena, uma embalagem vazia de bolacha água e sal e algumas várias outras coisinhas inutilizadas, ou eventualmente perdidas. Na escola já participei de várias campanhas do Lixo Zero. Repito que eu prefiro o R da redução no trabalho de sustentabilidade. Porém, como será possível reduzir numa sociedade de consumo desenfreado? Sem freio, sem parada, num mundo onde descobriram no meio do século XX o poder de compra de uma criança e logo em seguida, esse mesmo poder vertiginoso da juventude. Extraordinário o poder dos marqueteiros e a inteligência para o lucro. Pense que as crianças eram meros nada antes dessa descoberta. Os que eram apartados de qualquer conversa, ou ensino. Hoje são os ávid...

Singular

Segui até a estação Barra funda dentro do trem do Metrô. Eu, em pé no vagão, sempre olhando para frente. Eu faço até pose, estufando o peito e esticando a coluna. Sentada ao lado da porta, uma moça vestindo óculos, vestes comportadas e um rosto tristonho até. De repente sacou o celular e quase tudo mudou. Eu adoro quando ando a pé pelo bairro e alguém sente o celular vibrar e como que, do nada, olha para a tela e sorri. A moça no metrô não apenas sorria como também digitava rapidamente com os dois dedões. A alegria perdurou até ela guardar a máquina na bolsa e descer na próxima estação. Faço votos que ela sempre encontre a alegria quando estiver a fim. Penso que a alegria não se alcança esperando que um vento bom a traga pelas orelhas. Fico triste quando entro no terminal de vendas de passagens e os terminais de autoatendimento estão quase todos sem função. Num deles eu consegui, a duras penas, colocar as minhas informações. Só nao consegui imprimir a passagem. Esse é fato corriqueiro ...