Relíquias
Estamos arrumando o apartamento e nos desfazendo de algumas várias coisinhas.
De repente, sobraram dois porta-retratos que podem virar quadros e serem pendurados na parede.
Iam parar na garagem, mas eu tinha certeza que iria doar para dois alunos artistas durante a semana.
Trouxe as duas molduras há duas semanas e as deixei repousando na mesa redonda da sala sorocabana.
Não foi surpresa e nem fui surpreendido quando uma aluna do Oitavo ano fez um desenho que ela amou.
Ficou tão feliz, de uma felicidade pulsante, que imediatamente me veio à memória a Moldura branca plana.
Garanti que iria levar no dia seguinte para emoldurarmos a sua alegria.
E assim o fiz.
Ela nem imaginava que eu realmente ia levar o mimo e se emocionou com o feito.
Agradeceu como se fosse uma relíquia memorável.
E é.
Mais emoção aconteceu nessa segunda.
A proposta era que os alunos passassem canetinha num dos dedões da mão e imprimissem a Digital no papel.
A partir daí criariam sobre a impressão usando linhas formas e cores, abstraindo ou figurando.
Uma garota, nova na escola e na vida, também do Oitavo ano, imprimiu várias digitais na cor cinza e uma coloridíssima mais no centro.
As digitais tinham cabelinho, lacinhos, braços e perninhas.
Entre os seres intercalou a frase:
Um extraordinário entre tantos ordinários.
A emoção me pegou pelo coração e eu a elogiei muito, muito e muito mesmo.
De um jeito muito delicado ela me pediu um abraço.
Imediatamente a segunda moldura que ainda jazia sobre a minha mesa da sala, transformou-se num outro mimo que agora emoldura a obra.
A moça responsável pelo item sustentabilidade da escola, havia no início da manhã, me convidado para uma reunião para tratarmos de mais um Projeto Lixo Zero.
Fotografei e mandei o desenho para ela.
É imperativo que entre tantos ordinários, que parecem obedecer uma ordem: a de arremessar todo quanto é lixo no chão, pudéssemos mostrar algo de extraordinário, que seja apenas jogar o lixo no lixo.
Fato é que as duas mocinhas ainda nao haviam apresentado a sensação extraordinária de se emocionar com os feitos próprios.
E assim os dias vão atravessando os mostradores sem explicitar aquilo que realmente importa.
Relógios não são gente e cabe a nós calibrarmos valores ao que merece e deve ser valorizado.
Sempre há muito que ser reduzido no nosso consumo, menos aquilo com o qual o nosso espírito grita
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