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Ahahahahah

  O meu texto já começa com Ahahahahaha e não com Kkkkkk. Começo dando a ele e a mim uma conotação antiga, um tanto velha, mas não capenga. Acabo de passar na catraca de entrada do Metrô. Nela há um visor transparente onde aparece escrita a frase: Aproxime o Cartão Top. Logo abaixo está aquele símbolo que indica Aproximação. Juro a você que muitas vezes coloquei o cartão sobre o espaço transparente e me foi permitida a passagem. Hoje foi diferente. Aproximei e nada. Aparecia a mensagem: Cartão não identificado. Depois de várias tentativas um jovem policial militar veio me auxiliar. Ele já estava na mira, usando seu próprio cartão, quando viu que eu já tinha o meu. Pegou e aproximou o meu cartão do símbolo correspondente que se encontra abaixo do espaço transparente. Logo a cancela se abriu. Eu, um tanto curioso fiz uma pergunta meio insegura. O cartão deve ser aproximado nesse espaço abaixo? Ele acenou com a cabeça que sim, olhando de forma cínica para o seu colega de trabalho. Ess...

Compreensão

  Há muito tempo sou tentado a escrever sobre a compreensão. Penso que há tantas compreensões, tantas maneiras de compreendermos aquilo que nos foi apresentado. Porém, calculo que podemos enumerar alguns tipos, já que a forma com que eu compreendo não é a mesma que outros compreendem. Posso falar da minha. Ela é sempre relacional. A coisa me é apresentada e automaticamente fico fazendo múltiplas relações entre os significados das palavras. As palavras que me são colocadas numa conversa, numa questão, são signos participantes de um código. Código que relaciono com imagens que já conheço e assim busco a sua decodificação no conjunto. É essa forma de compreensão que uso também para as minhas criações imagéticas, minhas crônicas e meus poemas musicados. Partindo desse meu pequeno texto vejo que não sou capaz de descrever qualquer outra forma de compreensão sem que eu a julgue como falha de comunicação. Falha minha, talvez. Portanto, não me preocupo em ser compreendido, embora considere...

A caixa de remédios

  Abro a caixa de texto do meu celular e aparece o título: Remédios. Era a lista dos remédios que eu comprava para minha mãe. Ao remover a lista da caixa de texto tive a certeza que havia de escrever o texto sobre o qual pensava há dias. O remédio é escrever. Escrever sobre aquilo que parece ser uma doença que causa dor mas é apenas um sintoma de amor incondicional. Aquele que vem com a gente bem antes do tal intrauterino. Vem de um encanto divino que transcende os gêneros, os elementos da natureza e todos os escritos dos poetas e profetas. Porém, o que me fez ter essa ideia é uma lista de remédios mesmo que a perda possa ser irremediável. Dessa forma resolvo que a forma deve ser abstrata e não figurativa. Deve ser algo que a gente num primeiro momento sinta um desejo imenso de perguntar: O que é isso? E no instante seguinte passamos a ter uma certeza absoluta daquilo que é. Afinal, não é poesia, novela, ou romance. É só saudade de um olhar profundo, sem palavras, que num instante ...

Hoje

  Hoje vou propor um jogo de adivinhação. Quando o texto terminar espero que você compreenda sobre o que eu estou escrevendo. Todos em pé, vindo de várias estações do metrô, alguns cansados, outros com malas. Mais uma pensando no sítio que deixou para trás há anos. Eu nem me imaginava digitando. Logo em frente a moça abre sua bolsa de tecido mole. Avança dentro dela com as unhas sem pintura, atrita lenço, chave, porta batons. A moça na frente dela é protegida por um vidro transparente com um círculo rigorosamente cortado a diamante. Essa moça uniformizada não para de apertar os cílios postiços, uns contra os outros. De vez em quando balbucia algumas palavras para a moça que em pé mexe e remexe na bolsa. Eu também vim de algumas estações do metrô e resolvo trocar de espaço, ficando um pouco mais à esquerda, onde enfileram-se os mais novos. Aqueles mais velhos que anteriormente haviam chegado do metrô Marechal Deodoro, agora já são mais de dez. A senhora já nem tem mais noção do síti...