Hoje

 Hoje vou propor um jogo de adivinhação.

Quando o texto terminar espero que você compreenda sobre o que eu estou escrevendo.
Todos em pé, vindo de várias estações do metrô, alguns cansados, outros com malas. Mais uma pensando no sítio que deixou para trás há anos.
Eu nem me imaginava digitando.
Logo em frente a moça abre sua bolsa de tecido mole.
Avança dentro dela com as unhas sem pintura, atrita lenço, chave, porta batons.
A moça na frente dela é protegida por um vidro transparente com um círculo rigorosamente cortado a diamante.
Essa moça uniformizada não para de apertar os cílios postiços, uns contra os outros.
De vez em quando balbucia algumas palavras para a moça que em pé mexe e remexe na bolsa.
Eu também vim de algumas estações do metrô e resolvo trocar de espaço, ficando um pouco mais à esquerda, onde enfileram-se os mais novos.
Aqueles mais velhos que anteriormente haviam chegado do metrô Marechal Deodoro, agora já são mais de dez.
A senhora já nem tem mais noção do sítio deixado por ela às moscas.
Ela trata de conversar afiadamente com o senhor de sobrancelhas cheias que diz que seu filho o espera daqui há duas horas.
Duas horas faz que a moça viu a placa acima do círculo cortado a diamante onde está escrito:
Preferencialmente para idosos e gestantes.
Agora já são duas horas e dois minutos.
A bolsa mole continua aberta e nada mais esconde em seu dentro.
Tudo espalhado na frente do vidro transparente.
A atendente já nem mexe os lábios, apenas aperta mais os cílios.
Mais dois senhores.
Um senhor e uma senhora alinhados em fila somam-se aos demais.
Esses ainda mais desavisados.
Eu já estive na escada rolante.
Agora escrevo sentado e acomodado no banco azul de plástico enquanto vejo encostar o ônibus que me levará a Sorocaba.
Enquanto escrevo essa linha já em pé, me lembro do moço que me atendeu a pouco lá em cima.
Uniformizado, o cabelo curto e penteado, disfarçava ao meu juízo, as unhas curtas pintadas de preto.
Simpático e empático com a situação dos vinte senhores e senhoras plantados em pé.
Julgo praticamente com certeza, que quando chegou, a moça que tem a bolsa de tecido mole, não avistou nenhum ser mais velho, já que ela - moça que é - parece ter a visão mais que perfeita.
Ela ainda procura alguma coisa nesses instantes de desesperos.
O jogo de adivinhação termina agora.
Daqui do acento vinte e quatro do Cometa eu exercito a minha falta de amor ao próximo, já que não movi uma palha para pelo menos perguntar:
O que está acontecendo?
Por que tanta demora nesse atendimento?
Mas não.
Não movi um dedo para sair do meu conforto desesperado.
O sítio e o filho do Senhor e que vão ter que esperar.
Esperar que eu tenha um pouco  mais de bom senso

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