Zoom de alerta
Outro dia falei sobre as reformas de prédios não tão velhos aqui no bairro em São Paulo.
Porém, as casas geminadas que até outro dia eram lanchonetes, bares, costureiras, sorveterias e outros comércios, agora estão cobertos com tecidos claros e escuros com placas de demolição.
Interessante que esses tecidos são super transparentes e eu posso observá-las sendo desconstruídas, pedaço por pedaço.
Todas as cinco, ou seis, dando lugar a um prédio preferencialmente feito de Estúdios.
Penso no passado de cada um dos operários que construíram as casas que agora começam a virar terrenos.
Sei que a casinha que abrigou meus primeiros desenhos em exposição ainda está de pé.
Ao lado, na esquina, um prediozinho simpático já está vivendo há bastante tempo.
Outro dia repintaram a fachada e repito que ficou bem bonitinho.
De alguma forma temo pela casa da exposição.
Algumas casas que estão mais perto do nosso prédio estão com os dias contados, sendo que um restaurante/ rotisserie já se mudou para a mesma rua, só que lá longe, perto da nove de julho.
Nove de julho também é o nome de uma praça muito significativa para mim em Sorocaba.
Eu saía do Colégio Getúlio Vargas e subia até a Praça.
Tinha um mictório público muito no estilo parisiense.
Eu só atravessava a praça para passar na única padaria Real da época e comprar um pão sovado.
Aquele feito em gomos, quentinho.
Chegava em casa na rua Cesário Mota com apenas meio pão e a minha mala preta de vendedor de remédios, com um fascículo da Barsa dentro.
Uma delícia.
O passado fazendo zoom de besouro, um IMÃ.
Ele não se desgruda, mas eu não o fico remoendo, afinal a minha memória só se dedica a algumas situações bem pitorescas como esta.
Quase na praça, no início do ano letivo, fizemos um novo amigo vindo de Curitiba.
Avistamos um caminhão carregado com mexericas estacionado na calçada.
O nosso novo amigo foi logo gritando:
Quanta mimosa!
Você já sabe qual o apelido que o pegou até o terceiro ano do ensino médio.
Já havia maldade muito antes dos dinossauros.
Eu era muito magro e acho impressionante não ter tido um apelido no colégio.
O povo me chamava de Cury.
Uma vez, eu ainda estava no quarto ano do Grupo escolar e um garoto bem mais velho, que hoje é muito meu amigo, passeava com o seu cachorro bonitão pela calçada.
Ele gritou pra mim:
Fala Lombriga.
Rio porque acho que só eu o ouvi.
Repito que depois de muitos anos descobri que este amigo tem até um Cury como nome do meio.
Juro que ele tinha um apelido, mas não me lembro qual era.
O que importa é que o passado não me condena por nada a não ser pelas duas brigas de rua que eu tive com os meus dois melhores amigos.
De nenhuma das duas eu consigo me lembrar o motivo, mas com certeza foi idiota, porque nos dois casos terminamos as brigas abraçados.
O meu amigo irmão do grupo escolar é um mega artista e o do ginásio me apresentou todas as bandas dos anos 70 que eu curto até hoje e sou fã.
Dois artistas fantásticos.
Zé Cláudio, estou contigo sempre, sabendo que você já não está mais conosco, mas continua a pertencer às minhas lembranças mais positivas, nos deixando sua filha arquiteta preservando a sua memória.
Dois caras boa praça.
As gírias são mágicas e os meus amigos todos falavam Bicho.
Eu não consigo até hoje.
Uma coisa boba, porque é da hora o Bicho.
Hoje todo mundo é Zé.
Meninas e meninos são Zé.
E hoje todo mundo é véio.
A gíria sobre a qual eu mais me identifico e a Alice soltou essa para a amiga na outra segunda-feira.
Veja que dá hora véio.
Pensei até que era pra mim e até ameacei responder.
Rio porque tudo começou com velho, passou pra véio e agora é vé.
A verdadeira história das abreviações pra deixar tudo mais rápido do que já é.
Eu entendo e vou me adaptando.
E as casinhas vão desaparecendo, uma a uma, ou um Conjunto delas. Caminhões de concreto vão enchendo as ruas e agora as calçadas estão cobertas.
Um corredor coberto para que os estilhaços não machuquem os transeuntes.
A elite tenta, mas é difícil machucar os resistentes, Bicho
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