Antes do almoço
Resolvi deixar o almoço para depois.
Aprontei-me no vestiário e já estou pedalando.
Acho que farei assim nas terças.
As aulas da manhã foram bem produtivas já que produzimos o mobile da sala, composto por cubos dobrados na técnica do origami e depois desenhados.
Cada seis alunos dão forma a um Cubo que na semana que vem serão presos com barbante e suspensos no teto da sala.
É mobile porque ele se movimentará com a briga do ar condicionado.
Na outra classe, uma fala curta sobre o Expressionismo à flor da pele e a estética do feio.
Cada aluno produziu um retrato colorido usando as cores originais dos lápis, sem mistura e finalizaram com poucos contornos pretos para destacar a Figura.
Claro que lembramos da tela Imigrantes do Portinari e do Grito do Munch.
Com quarenta e cinco minutos de aula por turma, temos uma produção por semana, relativa ao tema proposto pelo livro didático.
Praticamente sobra só o tema.
A intuição e a inventividade dão origem às mais variadas atividades práticas.
Matisse tem uma fase de estamparia e para fazernos a Materialização da estampa, depois eu conto o processo inventado.
Que beleza se eu pudesse estar na cena onde o Matisse, numa exposição expressionista em Paris, passa por duas senhoras que estâo comentando sobre uma obra sua:
Uma diz à outra: Que absurdo, não existe uma mulher Verde!
Ele se aproxima e diz à elas:
Minhas Senhoras, isso não é uma mulher, é uma Pintura.
Uma frase tão certeira mostrando todo o processo criativo do Artista.
Um Artista que está no meio de uma revolução estética, onde após o impressionismo e a invenção da máquina fotográfica, as imagens e os movimentos artísticos vão sendo criados e entrelaçados, tamanha a capacidade criativa e envolvimento dos seus criadores.
Impressionismo, expressionismo, cubismo, surrealismo, futurismo, dadaísmo, abstracionismo.
Quando eu comecei a lecionar os alunos nâo compreendiam a existência da Palavra Abstracionismo, quiçá as imagens.
Hoje eles têm uma familiaridade com o termo e as imagens.
Evolução comprovada.
Abstrair é uma condição inteligente.
Já contei aqui que uma criança de doze anos disse no MASP que uma obra abstrata para ser Lida deve ser compreendida como uma composição feita com linhas, formas, cores e texturas.
Isso aconteceu nos anos 90, imagine.
E assim caminhamos todos nós na esperança incansável de alcançarmos algum equilíbrio.
Acho graça que em todas as salas dos professores os assuntos são sempre as aulas e os alunos.
Não há descanso e não tem como.
Professor é como Artista, é compulsivo, vive pensando e vivendo dúvidas e soluções.
De repente, algo aparentemente complexo se torna simples, porém isso só vem com a maturidade e isso independe de idade.
Várias pessoas, inclusive eu, encontramos jovens que têm cabeça velha e isso nos deixa entusiasmados.
O grande problema está no velho se deixar envelhecer e sempre estar repetindo a frase: No.meu tempo...
O nosso tempo é esse e a intuição e a criatividade estão à flor da pele.
Nunca criamos do nada e sempre temos a referência da própria vida.
Acabei de ouvir o Renato Teixeira falando da composição com o Almir Sater.
Tocando em frente.
Uma das canções mais populares e famosas da dupla começa assim:
Ando devagar porque já tive pressa.
Nas palavras dele a letra foi feita com a colagem de frases de plaquinhas.
Ando devagar porque já tive pressa.
Levo esse sorriso porque já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe.
E por aí vai.
Frases de plaquinhas e traseiras de caminhões, fazendo a beleza na ideia do artista.
Almir cantarolando a melodia na viola.
Assim é e assim será.
Ferreira Gular também já nos ensinou que a Arte existe porque a Vida só não basta.
Geniais figuras fazendo do jardim terrestre algo com jeito de flores.
Minha senhora, meu senhor, isso não são várias flores.
Isso é a vida e a vida em abundância
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