Chapa de metal

Acordei pensando nas aulas de escultura em metal da faculdade dos anos 80.
O Mestre era Nelson Lerner.
Eu já sabia quem era o super artista que revolucionava tudo o que já era vanguarda, portanto você pode imaginar as aulas dele sobre escultura em metal, ou qualquer outra aula.
Eu, aquele garoto tímido do interior com algumas ideias na cabeça, que não conseguia entender ainda o livro da Fayga, Criatividade e processos de criação.
Eu era apenas intuitivo.
Na faculdade tínhamos oficinas e uma delas era a de metal.
Com máquinas de vários tipos e uma delas, dobrava as chapas metálicas em linhas retas.
No final do semestre nós apresentávamos nossos projetos individuais.
No dia marcado aprendi que menos é mais, já que eu acrescentei de forma nada a ver, o carimbo que havia produzido nas aulas de xilogravura.
Bastaria a sala vazia, toda escura, com a chapa de metal com duas dobras retas e inclinadas, transformando a chapa bidimensional num objeto tridimensional.
Para refletir melhor eu pintei o Objeto de branco e o fixei na parede do fundo  da sala.
Durante todo o semestre fotografei em Slides inúmeras peças de metal que encontrei pelo espaço da Facul.
Tomadas, bocas de lobo, portas, pedaços de janelas, medalhas, troféus, enfim, tudo o que encontrava produzido com metais.
Na noite da apresentação levei o Mestre e entramos os dois na sala escura.
Já havia deixado os Slides todos no carrossel do projetor dos anos 80.
Quando entramos, um amigo já projetava as imagens bidimensionais fotografadas sobre a placa 3D.
O Mestre se emocionou com os closes das portas metálicas se deformando ao comando das dobras do painel também metálico, pintado de branco.
Porém o meu maior aprendizado foi a pergunta do Mestre:
Por que Vc acresentou à Mostra esses painéis de madeira com essas imagens carimbadas coladas sobre eles?
Nem lembro o que respondi, já que na hora aprendi que muito menos é muuuuito mais.
Venho aprendendo e me esforçando para simplificar as coisas sem perder a minha característica de blá, blá, blá, significativo, onde sempre procuro contextualizar as pessoas do multiálogos imaginando que elas não entenderão se eu for muito objetivo.
Rio porque senta que la vem história.
Também sei que esse meu jeitão é o que ainda me deixa vivo e confiante no ensino-aprendizagem.
Não por acaso, no carimbo estava inscrita a palavra: Reflexões.
Na instalação final das aulas de escultura em metal bastava a projeção e a tela 3D, porém além da brincadeira conceitual da bicicleta e da tridimensionalidade, imaginei outras reflexões vindas da minha juventude e ignorância.
Mais tarde, quando o meu amigo Maestro me convidou para fazer doze trabalhos pintados por vinte alunos músicos no Conservatório de Tatuí, aceitei na hora.
Foram seis dias de pintura, onde desenhei rapidamente uma figura humana representando Hércules num dos lados de cada painel vertical de três metros de altura por um metro de largura.
Os músicos começaram pintando com tinta amarela fluorescente as linhas que representavam Hércules.
Secou rapidamente e a partir daí os pintores músicos preencheram todos os espaços com tinta látex de várias cores.
Pintaram também o verso dos painéis porém esses não tinham a figura Hercúlia.
No domingo da apresentação, dois atores, um homem e uma mulher, além de um coral maravilhoso de meninos e meninas, subiram no palco onde os seis painéis já estavam montados, presos no teto por uma corda e descansando a base no chão.
Começa a sinfonia e de tempos em tempos os painéis eram virados, um a um.
No momento final do espetáculo as luzes negras posicionadas nos pés de cada painel foram acesas e como num passe de mágica surgiram as seis imagens de Hércules.
Por isso a pintura foi iniciada com a tinta fluorescente.
O nome da Peça?
Os doze trabalhos de Hércules


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