Natividade
Uma enxurrada de curiosidades.
Aquelas vezes que perco a estribeira, sendo que o estribo só permite que o cavalo olhe para a frente, sem distração.
Aquele meu olhar não dado quando não tenho moedas para comprar um bom-bom da mãe, que o vende junto aos guardanapos.
Aquela ausência de xingamentos quando sou fechado no trânsito caótico.
Aquelas palavras ditas instantaneamente num momento bem humorado, sem julgar atentamente qual está sendo o humor do outro.
Aquele defeito dominó.
Aquele intento de nunca perder o bom humor.
O gosto por receber coisas que não servem mais para os outros.
O ficar colando papéis e coisas encontradas nas ruas numa caixa de sapatos que ia para o lixo reciclado.
Os vários momentos de ócio em frente à televisão, onde cada cena me leva a tantas possibilidades de equações.
Aquela busca por resultados enquanto o gato mia e a gata ronrona.
Aqueles traços que rabiscam uma tela muito rugosa, que vai adestrando as canetas com tinta preta.
Aquela conversa franca com o amigo professor que se surpreende ao saber que sei o seu nome.
Aquelas pedaladas que se despreocupam com a sequência ociosa de exercícios múltiplos e ficam observando os joelhos que sobem e descem.
Aquele abraço forte que cuida da minha ansiedade e acalma a do outro.
Aquele beijo no rosto do moço barbado que atravessa o carinho e encontra o amigo, que já vem beijando e abraçando.
Aquele sentimento de já haver estado, já ter se sensibilizado e se conectado.
Aquela vontade de ter memória para a afinidade.
Aquele estar presente nos cortes dos legumes, da cebola e do alho.
Aquela corrida entre um comércio e outro para saber que eu só gasto o que ganho, sabendo que o dinheiro é pra isso mesmo.
Hoje o deus é o dinheiro e eu sei, mas não me arrependo do simples e de ser ateu material.
Aquele espírito que anda além do personagem Fantasma, dos quadrinhos.
Aquele espírito ao qual me ligo apenas intuindo que acompanha meu ácido desoxirribonucleico.
Aquela sensação de Natal constante.
Aquela sensação que a palavra sensação é verbete que se transforma em Sensacional.
A Fantasia que se vira em Fantástico.
O Bacana que antes foi Bacco, o deus da festa e do vinho.
Pai, só afaste de mim o cale-se quando a outra pessoa está certíssima.
O cálice sagrado, no Indiana Jones, entre tantos era o mais simples, sem diamantes ou rubis.
Era o de Madeira.
Adoro as peças do Aleijadinho e dos seus dois ajudantes.
A desgraça é que os ajudantes eram escravos.
Algumas vezes tenho ouvido que devemos separar as Obras dos seus Autores, no sentido de que os seus autores podem não ter sido tão honrados assim.
As Obras realmente são seres à parte.
Elas falam por si só, embora o que eu diga nem sempre seja o que o outro está compreendendo, mas como já me disse o Autor Ariano:
Só sei que foi e é Assim.
O Natal é esse eterno Hoje.
Neste caso específico a natalidade do ser Jesus.
Aquele que disse a Pedro, no ato de estarem descendo o monte e depois de ser questionado do porquê não ficarem ali em cima, naquele ótimo estado de paz.
Jesus o repreendeu:
Pedro, tome tento.
É a partir de agora que vamos descer esse monte e só vamos tomar Porrada
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