Inquieto

Uma lembrança boa foi o instante em que na minha adolescência meu pai fez a observação:
Betu, você é distraído.
Hoje acho que essa síndrome teria outro nome, mas de toda forma eu estava no mundo da lua.
Um mundo onde os artistas de maneira geral estão alocados, já que precisam de certa distância para encarar os detalhes e arrancar deles uma certa, ou incerta elegância.
O que é interessante, já que hoje e cada vez mais, me sinto como um E.T., tamanha a diferença de atitudes e incompreensões ante aos acontecimentos cotidianos.
Mundanos.
Ontem vi nas redes antissociais um comentário pertinente:
A Internet não perdoa.
Todos referentes ao senhor Zezé de Camargo.
Ele se posicionou contrário a atitude das filhas do Silvio Santos de convidar o presidente para a festa de inauguração de um novo canal de notícias do SBT.
O músico, na sua recusa para participar da festa, afirmou que o senhor Abravanel jamais faria o que as meninas fizeram.
A partir daí foi uma enxurrada de vídeos mostrando o quantidade de vezes que o apresentador levou Lula ao seu programa e a quantidade de vezes que o músico se equivocou em aparições no canal.
Nem vou citar e muito menos comentar sobre os equívocos.
Citei esse caso para realçar a minha total divergência sobre boa parte das atitudes dos normais.
Atitudes estampadas em filmes, novelas e séries que fazem sucesso popular por repetir padrões de beleza, mentiras, falcatruas, preconceitos e todo tipo de maracutaia, como sendo coisas das pessoas de bem, ou pessoas normais.
Fui e ainda sou muito distraído.
Distraído pela observação das pequenas coisas, abstraindo delas a vida por trás das cortinas mal lavadas das salas de jantar, como escreveram Caetano, Gil e Juan Pablo.
Abstrair é fazer do limão uma limonada, é colocar em pratos limpos aquilo que nos querem enfiar goela abaixo.
Dar o nosso jeitão, colocar a nossa marca, adaptar as agruras desta vida confundindo as vozes que confundem o poder.
A minha inquietude nem é tão avassaladora assim, sou muito precavido, tímido.
Eu deveria ser mais impulsivo, colocar minha voz aos sete ventos, me rebelar, mas não fui agraciado com essa forma.
Claro que dito assim me faz pensar que eu preciso trabalhar mais esta questão.
A tal abstração corre muito pela matemática, sendo que se pensarmos bem, o símbolo 1, é totalmente abstrato.
Não há como não o ligarmos a uma laranja, um bolo, uma pessoa ingrata.
Dezenas, milhares, milhões, trilhões, tudo muito abstrato, até o sujeito inventar de dar um passeio numa nave pelo espaço.
Um sujeito só e seus trilhões.
Um passeio rápido sem alcançar a lua.
A poesia do musguito en la piedra é mais próxima da dádiva lunar.
Fosse Manoel e ele diria que a impulsão do foguete é o salto do gafanhoto que rói as notas.
Nossa poesia abunda o universo e ele nos abunda.
A tribo dos Bundos foi escravizada pelos portugueses e trazida para o Brasil.
A tribo dos Bundos era composta por artsãos que trabalhavam peças de ouro no seu país de origem.
Ao serem ferozmente trazidos para serem escravos no Brasil, eles trabalhavam nas fazendas.
Nós, os brancos, percebemos que nessa tribo, os homens e as mulheres tinham os glúteos avantajados, donde adveio a palavra Bunda, em português do Brasil.
Mais uma agressão, mais uma xacota, mais uma entre tantas.
A abstração é urgente.
A busca por reportagens genuínas que mostram o poderio negro em todas as áreas do conhecimento deve permear a nossa existência, para deixarmos minimamente a nossa ignorância.
E assim compreendermos todas as pessoas e seus grupos que são explorados pela Cultura do poder do dinheiro.
Aborígenes, indígenas, negros, afegãos, indianos, nós brasileiros e nossas incongruências e nossas ações contraditórias.
Meu pai um dia chorou de tanto rir comigo contando uma piada.
Abstrata lua, que está acima da caixinha de som e da placa de mármore sobre a grama


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