Enormes
São Paulo continua sendo a terra da garoa.
No meio de tantos prédios, comércios gigantes, eu vou à uma lojinha de sapateiro.
O pai do moço era sapateiro.
Quando entrei já encostando no balcão vi que havia um funcionário mais velho trabalhando para o moço.
Ou seja, Sapataria não é mais uma coisa moderna.
O moço agora só recebe o serviço e fica plantado no caixa.
O modernismo sempre me atiçou a mente e as minhas ações.
De tal forma que tenho apreço pelas coisas Contemporâneas, mas tenho predileção pela palavra: Moderna.
Não significa que eu fique elogiando as coisas do passado como sendo sempre as melhores, pelo contrário, tenho para mim a certeza que sou agraciado pelas coisas deste tempo no qual estou inserido.
O tal Agora.
Consigo e acho bonito fazer análise sobre tudo de novo que se apresenta diante de mim e pelas coisas novas que alguém me apresenta.
Essa história de: No meu tempo, só me vale como experiência.
E essa experiência participa da análise das coisas que se apresentam agora e me afetam, de forma positiva, preferencialmente.
A garoa na minha cabeça é algo rico, que mais do que me fazer lembrar do guarda-chuva, ou do capuz, me faz feliz por desaquecer a minha cabeça.
Faz-me olhar para o chão e perceber os espaços perto das paredes onde não está molhado.
Isso me importa mais do que ficar olhando as coberturas.
Mais importante é ver que as folhas secas se juntam e se concentram com a garoa que cai sobre as calçadas.
Nas decisões por pênaltis aparece claramente a disfunção emocional de alguns batedores.
Não adianta falar dos milhões que cada jogador ganha mensalmente porque isso é corpóreo e não etéreo.
Isso também tem a ver com comentários que muitos fazem sobre o futebol do passado.
O que está sempre em jogo é a inteligência, aliada ao preparo físico e o controle mental.
Assim é no jogo como um todo e também neste jogo habitual que chamamos de Vida.
Acabei de ouvir uma frase dita numa série:
Nós somos o que fazemos.
Eu adoro isso.
Fazer com que o lixo seja jogado nos cestos apropriados e não no meio da rua, por exemplo.
A garoa cresce, se avoluma e vai empurrando o lixo para as bocas-de- lobo e essas se entopem.
As enchentes varrem residências feitas em locais também inapropriados e também aquelas que são feitas no asfalto.
Sobre isso, amei a fala de uma moça nigeriana, agradecendo a ajuda que mata a fome, mas alertando para não nos esquecermos dos sistemas de poder que levam regiões inteiras a este estado de pobreza e miséria.
Lembro que faço muito pouco para enfrentar esse sistema absurdo e feroz.
Fico pensando que sou aquele beija-flor que pega a água do rio e volta para apagar a floresta, fazendo isso milhões de vezes.
Aquele poeta que se arrisca num palavrão para esbravejar a sua raiva:
A palavra veio de carona, veio assim, veio dizendo Não.
Aquela palavrinha que veio, vinha, feito veneno de escorpião.
Picou o músculo da letra e mudou a sua direção e ela que era bela e terna, virou mandíbula de tubarão.
Talvez eu queira simplesmente que as palavras sejam escamas de um dragão chinês.
Palavra, Palavrinha, já que vinha, venha inteira, como um Palavrão.
Eu agradeço a garoa e sei que algumas palavras-palavrões são ditas com um entusiasmo que vai além da raiva e do ódio.
O palavrão vem como gíria, bicho!
A saudade é um bicho ladrão que rouba a paz do meu coração, mas é um bicho distraído que eu faço questão de confundir.
Eu vou preparando a armadilha pra que ele seja preso no laço.
Eu vou confundindo esse bicho com a força do nosso abraço.
São garoas modernas assim que me encantam, juntando ainda mais folhas nesta poça que o sol aquece e revitaliza
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