Cavanhaque e bigode

Caminhando pela calçada botei reparo que havia esquecido meu relógio digital em casa.
O esquecimento ficou mais evidente quando notei que ele já fez uma marca mais clara na minha pele do braço.
Coincidentemente fui à dermato nesta semana.
Ela não percebeu nenhum problema e apenas receitou um protetor solar e um sabonete líquido para o rosto.
Tenho a pele bastante oleosa.
Sigo à risca as prescrições médicas.
Fui advertido que estou escrevendo muito sobre mim mesmo.
Em parte é uma afirmação verdadeira, mas também é verdade que meus textos falam sempre de mim mesmo.
Sei que a advertência privilegia à condição de escrever sobre acontecimentos dos outros que interferem na minha existência.
Realmente tenho manifestado mais aquele egoísmo sobre o qual já escrevi algumas vezes, afinal tudo o que faço me deixa bastante feliz e aquilo que é arremessado sobre mim, procuro levar mais de boinha.
Quando observei a mancha mais clara no meu pulso em relação ao resto do braço, o protetor solar que foi receitado é o mais popular, já que o sabonete líquido e o protetor para o rosto custam literalmente Os Olhos da Cara.
Aplicar o protetor me dá mais preguiça do que outra coisa.
Rio porque adoro os neologismos e metáforas.
Quanto ao meu egoísmo, quase que do nada, ao mesmo tempo que já estou montando a Caixa de materiais do ano que vem, comecei a cultivar o bigode e o cavanhaque.
É um processo que eu tenho que passar pelas primeiras fases.
A da coceirinha, a do acostumar com a ideia e a de me achar ainda mais bonito.
Como no passado já tive essa experiência já sei que o volume do resultado é extraordinário.
O volume do bigode é tanto que no passado ele levou o meu lábio superior para dentro, de tal forma que mais tarde, quando retirei os pelos, não se podia mesmo enxergar o dito lábio superior.
Porém nada disso importa o suficiente.
Importa mais o observar a senhora baixinha em situação de rua.
Ela me acompanha todos os dias pelas calçadas do Itaim e quando passa por qualquer loja já sai nervosa, xingando e esbravejando.
Não me acompanha lado a lado, mas me faz pensar no quanto eu sou abençoado por viver com tranquilidade apesar da ansiedade relevante.
Mais uma farmácia foi aberta aqui no bairro e desta vez parece que escolheram os melhores jovens profissionais das outras unidades.
Atendimento de primeira, com os funcionários se revesando nas atividades e conhecendo os medicamentos de cor.
Digo isso porque o marido da Dermato tem uma empresa de distribuição de utensílios hospitalares e não consegue achar e acertar com funcionários que estejam aptos a atender telefone, por exemplo.
Claro que sempre haverá pessoas que se destacam pela vontade e pelo interesse em serem ótimos no ofício que por hora desenvolvem.
Assim como nós seremos humanos temos predileção pelos palpites, somos também agraciados pelo egoísmo de pensarmos demasiadamente em nós mesmos, fazendo coisas que nos deixam felizes.
Vou usar um clichê já que sou brega o suficiente:
Fazemos coisas que nos deixam felizes sem prejudicar as outras pessoas.
Enquanto eu me organizo nesta classe, vou me entendendo como muito privilegiado e vou procurando achar mais pessoas para partilhar esse estado humano maravilhado.
Não me canso de mencionar que as conexões existem para realçar ainda mais essa condição.
A condição de termos antenas no topo da Cabeça e nos achegarmos a pessoas que pensam, sentem e se emocionam da mesma maneira que a nossa.
Na maioria das vezes não acerto de primeira, como na minha última composição litero-musical.
Precisei gravar e modificar a letra e a melodia umas dez vezes.
Assim é.
Buscando acertar de alguma maneira o sentimento e a emoção dos outros, afinal por um motivo ou por outro, os meus estão garantidos por uma autoestima que parece inabalável.
Dá-lhe um bigode e um cavanhaque.
Grisalhos

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