Poemas cotidianos
Articular as palavras para que produzam algum sentido.
Eu escrevo e largo o conjunto para que cada um faça a sua própria leitura.
É aquela história que diz que o que a gente fala nem sempre é o que o outro escuta e entende.
E é assim mesmo.
Não somos donos das experiências dos outros e muito menos das diversas formas que os outros interpretam as suas próprias experimentações.
Todo esse caminho é sempre muito interessante, me interessa.
Daqui eu vejo muitas pessoas correndo nas esteiras sem apoio das mãos.
Eu não consigo, da mesma forma que não ando com skate e nem surfo.
Essas atividades exigem uma desenvoltura que eu não tenho.
Coragem de se entregar ao movimento do objeto.
E também na Estrela, coragem de soltar o corpo em movimento.
Gosto muito de pensar nas habilidades distintas de várias pessoas.
Distintas no sentido de serem diferentes, cada um mais desenvolvido numa atitude, ou atividade.
Minha ansiedade e hiperativodade sempre me impediram de ficar parado e ler um livro inteiro.
Ninguém acredita que eu não sou um bom leitor, mas é verdade.
Sou péssimo.
Porém devo ser um bom observador e devo ter um ouvido seletivo, que seleciona a estética das palavras.
Onde não acho beleza, vejo como ruído.
Sempre prestei atenção nas aulas e para mim isso tem bastado.
A atenção.
Ontem esperei o App do Uber me trazer um veículo.
Dez minutos e nada.
Andei até a Joaquim e peguei o ônibus que me deixou no metrô.
Depois de algum tempo em pé, notei um lugar vago ao lado de uma senhorinha que descobri que às 19e30 estava atrasada para o trabalho.
Sentei-me e demos muitas risadas a partir de uma palavra que ela soltou ao sentir o trânsito todo parado:
Misericórdia.
Lá fui eu procurar nos meus arquivos de áudio a fala da neta Alice quando tinha dois aninhos:
Misericórdia.
A senhora teve frouxos de risos e eu ainda pude ligar de video para a Ju, mãe da Alice.
Alice atende fazendo croché e repete a fala:
Misericórdia.
O trânsito flui bem na Faria Lima e a senhora desce dois pontos à frente.
Antes ela me diz que eu fui capaz de acalmá-la e me desejou que eu ficasse com Deus, no que eu respondi:
E Você fique com Ele.
A poesia é assim na modernidade.
Falamos com pessoas próximas e as próximas mais distantes.
Tudo ao mesmo tempo agora, como o titulo do álbum e da canção dos Titãs.
O que está importando é o que importa em nós a calma e a alegria.
As coisas ruins estão aí como ruídos e fazemos a nossa parte para que virem algo parecido com a música do John Cage.
Ele fazia música com liquidificadores, pratos, bicicletas e outras bugigangas.
Nós fazemos também, andando dando a volta no estádio inteiro para chegar no portão Leste.
Ao estarmos perdidos é só esticarmos o braço direito para onde o sol nasce e saberemos que à nossa frente está o Norte
Comentários
Postar um comentário