Linguagens

Mais uma vez observo a importância das linguagens.
Depois de passar rapidamente por um lugar muito lindo, com artesanias incríveis, eu precisava chegar na rodoviária de São Paulo.
Ao passar pelo portal de saída me dirigi ao porteiro de terno.
Perguntei como fazia para pegar um ônibus para chegar até uma estação do metrô.
Com gentileza ele me levou até a calçada e me disse que era muito mais fácil eu ir a pé.
Disse para eu virar a primeira à esquerda e depois a primeira à direita.
Disse ele que depois da drogaria a estação estaria logo ali.
Três quarteirões.
Tudo certíssimo.
Entrei na linha lilás e andei até o trem que me levou até a estação Santa Cruz.
Lá dentro da estação o caminho é intenso e longo até chegar na porta do trem que me levou até a Sé.
Longas subidas em escadas rolantes.
Pelo menos três níveis.
Perceba que neste percurso eu tive que rememorar a palavra três, saber que é um número, ter ciência do que são quarteirões, estação, a cor lilás, seguir as placas, ler a sequência de estações relativas e ir decodificando esses códigos.
Nunca me esqueço das dificuldades pelas quais passam os deficientes visuais, por exemplo.
Sou privilegiado.
Desci na estação Sé e fui seguindo até a porta do trem que me trouxe até a Barra funda.
Dentro dos trens encontrei uma série de sinais fantásticos que me distraíram e ao mesmo tempo me alertaram para a importância da atenção.
Uma moça com a cabeça raspada usava uma calça jeans que tem um passador onde a namorada colocou os dedos em apoio.
A moça deixou o dedo indicador bem esticado e eu pude ver uma unha postiça com brilhos e relevo.
Abaixo do seu braço pude ouvir o moço preto falando no celular usando uma língua africana.
Não pude intuir com quem ele conversava, mas fiquei imaginando que poderia ser um parente na África, ou um sócio no Brasil, com quem ele estava fazendo planos de negócios.
Um pai cedeu o lugar para a filha adolescente que estava com um gesso no braço.
Com certeza ela ainda não foi à escola com o gesso porque ele estava branquinho.
Não tem jeito de um gesso não ser todo assinado e desenhado com você estando na escola.
Saindo à direita no Terminal Rodoviário o caminhar é maravilhoso, já que fico maravilhado com a diversidade das vestimentas das pessoas que vêm no contra fluxo.
Deixo com você a imaginação dos mais variados tipos.
Imagina que eu, no fluxo, uso a minha calça de moleton azul marinho, minha camiseta estampada com os símbolos de cada integrante do Led Zeppelin, meu par de tênis preto com cadarços elásticos, meus óculos de massa verde e a blusa do moleton na cintura amarrada com um nó, que que o calor me pegou de jeito.
Identifiquei-me porque não posso fazer juízo de valor sobre a forma como as pessoas se vestem.
Nunca me esqueço de uma fala do Jô, dizendo que ninguém sai de casa se achando feio, ou feia.
Sair de casa é um ato de coragem, principalmente nas cidades.
Para que entendas melhor, mostro a minha coragem quando vou à praia com a pele leitosa, usando uma bermuda com estampa e cintura pretas, cobrindo a minha sunga azul marinho.
Nos últimos anos coloco uma camiseta branca desenhada para disfarçar e evitar uma queimadura de terceiro grau.
Assistindo a segunda temporada de uma série bem levezinha que faz graça com as ciências humanas, mas as apoia, me certifico que muitas vezes eu posso não ser totalmente compreendido.
Rio porque eu tenho certeza que eu sou caretérrimo e muito certinho, apesar de muita gente me perceber na loucura.
É aí que a canção do Arnaldo Baptista me salva

P.S.- Apesar que ele é bem louquinho rs

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