Favoráveis
Quando eu começo a pedalar, sempre há uma resistência das pernas.
O condicionamento faz com que isso dure apenas alguns minutos.
O condicionamento é parte importante, mas na vida também é importante o improviso.
Acho muito bom eu ter a habilidade da intuição que motiva o improviso.
Tenho certeza que muitos artistas usam estudos e planejamento em seus trabalhos.
Tenho evitado esse processo e me atirado mais às formas dos suportes que utilizo nos meus trabalhos.
Um exemplo é a rugosidade dos tecidos das calças e camisetas, além do fato de não serem totalmente esticados.
Uso os dois dedos da mão esquerda para dar uma esticadinha e mesmo assim a ponta da caneta vai de desgastando na medida da rugosidade do tecido, o que me faz traçar a partir das características que se apresentam.
Desde 1983 sou professor de Arte.
É impressionante como essa tarefa necessita de várias habilidades científicas, biológicas e humanistas.
É desta forma que a habilidade do improviso se torna cativante.
Um acontecimento inusitado na sala e eu já devo inventar um novo procedimento, muitas vezes cuidando do emocional do aluno e muitas vezes proporcionando condições dele se emocionar, apenas valorizando o seu desempenho.
Este ano teve o episódio de um elogio à uma ideia e execução fantástica que eu já citei aqui.
A menina tingiu o dedo com a cor cinza e foi imprimindo separadamente na folha de papel branco.
No centro, coloriu com tiras de várias cores o dedo e imprimiu a sua digital colorida.
Pelo fundo escreveu a frase:
O Diferente no meio de tantos Iguais.
Não teve jeito:
Elogiei, elogiei e elogiei.
No final da aula eu fui agraciado pela frase:
Betu, me dá um abraço!
Este ano de aulas está quase acabando, mas os aprendizados jamais acabam.
Sobraram uns três porta-retratos da mudança da dona K.
Levei um deles, branco, para a menina emoldurar sua obra.
Os exemplos são tantos que aqui não cabem.
A delicadeza do aprendizado cabe numa palavra:
Agradecimento.
Eu sou grato por tanto:
Existe uma frase bíblica que parece assustadora, mas sempre foi inspiradora para mim.
Quanto mais talentos lhe forem dados, mais você será cobrado.
Eu acho bem tranquila a realização desta tarefa, já que é o que me deixa realizado e feliz.
Todo mundo recebe talentos, possivelmente inscritos no DNA, mas a gênese não me interessa tanto.
As relações sociais me interessam.
A Arte me oferece a chance e a oportunidade de atribuir valor a todos os seres que cruzarem o meu caminho e precisarem ser Vistos.
Até o mais popular precisa, quando quase sozinho, de um abraço afetivo.
Efetivo.
Numa entrevista pós jogo o talentoso técnico de futebol Abel Ferreira soltou essa:
Eu cuido dos meus jogadores, mas quem cuida de mim?
Ele estava falando do emocional, com emoção.
Ouvi muitos falarem que ele ganha muito pra fazer isso.
Mais uma vez o dinheiro não faz parte desta equação.
Pedalando eu já nem sinto mais as minhas pernas, o que acontece é que eu me emociono, já que eu sei muito bem que existem muitas pessoas que cuidam de mim
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