Coincidência
Percebi que Co incidir é incidir no mesmo instante.
Ontem, um garoto estava sentado numa das escadas da escola, desenhando um olho que ele daria para a inspetora.
Sentei ao lado deles e ficamos conversando.
Ele é meu aluno de desenho e é muito bem educado.
Adora desenhar e tem muito talento.
Ele me falou do primo artista que faz música e canta e eu na mesma hora o procurei no YouTube.
Encontrei e comentei com ele que achava o estilo muito parecido com o do Tiago Iorc.
Antes que eu mostrasse um dos sucessos do Iorc, ele viu no clipe do primo, que além da imagem do moço em primeiro plano, no fundo ele aparecia desenhando a partir de sobrancelhas.
Curioso.
Na sequência achei o sucesso do Iorc e o garoto não só sabia a melodia como sabia a letra.
Cantarolou:
Eu amei te ver, eu amei te ver.
Uma voz sensacional do moleque.
Quando terminamos de ouvir e cantar a música que saía baixinha do celular, ouvimos curiosos o som forte, vindo lá de baixo.
O professor Odi havia levado a caixa de som para o parque das crianças.
O som forte que saía da Caixa era:
Eu amei te ver, eu amei te ver.
Co incidiu, no instante cerebral onde as nossas cabeças se interrelacionaram com a cabeça do Odi e a dele com as nossas.
E Amamos nos ver assim. Sintonizados, coincidindo, Interagindo além da conta.
Na apostila de Língua portuguesa o último tema é inteligência artificial.
A professora nos apresentou o filme Her.
Ela.
E Ela, no caso, é uma mulher advinda da inteligência artificial, que se torna a paixão digital de um escritor.
A artificialidade, o artifício, o ilusionismo da mente humana.
O filme termina com a mulher real, que havia terminado o relacionamento com o amigo do escritor, encostando a cabeça no ombro Deste.
A cena é filmada com os dois de costas, sentados numa pilastrinha nk terraço do prédio gigante.
É claro que eu peguei o filme do meio para o final e fiquei impossibilitado de ouvir muitas falas, já que os alunos e alunas faziam comentários falados no meio das cenas.
Rio porque vou assisitir o filme inteiro para poder ter a certeza da quantidade de referências simbólicas inseridas pelo autor.
Eu também gosto de imaginar e perceber o essencial através de alguns detalhes.
O poeta ouvia a moça digital pelos seus fones de ouvido sem fio e muitas vezes interagia, também de longe, com a ex mulher do amigo que tinha três monitores de computador na sua frente.
As relações humanas são por vezes muito complexas e me impressionou o momento no qual há uma pane na Rede e o poeta fica alucinado pela Falta da companheira digital.
É numa escada do metrô que a moça retorna online e ele descobre que além dele, a Digitalizada está a conversar com outro humano.
Ele fica estarrecido ao ouvir a resposta Dela, quando ele pergunta com quantos homens ela está se relacionando ao mesmo tempo, além dele.
A resposta vem pela voz da Alexa:
Seiscentos e quarenta.
As escadas celebram olhos e sobrancelhas, canetas pretas e coloridas, cartas e mensagens.
Escadas como as do artista Escher, impossíveis de serem reproduzidas no Real, com subidas e descidas estranhas.
Estranho mesmo é não Percebermos as diversas possibilidades de coincidências que sobem e descem para o céu e para o inferno, essas duas entidades que estão nos cercando do começo ao fim das trajetórias, ditadas por nós mesmos, humanos sedentos de vingança e ódio, mas também criadores de amor e compaixão.
Falando em Escher, o cara pintava a óleo suas composições aparentemente tridimensionais, que hoje podem ser feitas num clicar no aplicativo.
Notem que aparentemente o negócio é feito para Aplicarmos nossas ideias, sentimentos e emoções.
O resto é poesia, que no filme, aparece através das cartas que o poeta escreveu, publicadas num livro físico.
As cartas ele escrevia como se fosse outra pessoa mandando para outra que a recebia pelo correio.
Nenhuma das duas era Ele, mas ele era todas e nenhuma, num co incidir de afetos próprios do autor.
Eu sou tão egoísta, já que Eu amei te ver, eu amei te ver
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