Agressividade
Imagine que não dá nem tempo de sentir o coração saltar, ou levar um susto.
Estávamos falando no carro sobre as más condições de moradia do povo que mora em barracos de madeira com teto de zinco em cima.
Tudo isso embaixo de um viaduto enorme.
Uma casinha geminada à outra.
Bummmmmm?
O vidro do carro estoura, um braço vestindo moletom entra e em um segundo desaparece.
O celular que estava no painel mostrando a rota é levado.
Sobra o suporte e o vidro estilhaçado.
Sobram também dois cortes no meu casaco forrado.
Nenhum dos dois se machucou.
Nossa condição de professores é razoável e desde ontem tudo está como antes.
O que mudou foi mais um aprendizado.
Agora, ao sair do prédio, entrei rapidamente no estúdio do moço artesão e perguntei se já havia acontecido com ele.
Ele me respondeu assim:
Aprendi com o ocorrido.
Nunca mais celular no painel.
É claro que quando o meliante resolve que vai te assaltar ele assim o fará.
Cabe-me respeitar os limites de uso do aparelho.
Eu por natureza, já gastei o meu raciocínio sobre o caso ao levantar.
Não ficarei mais Pensando em todos os perigos.
Nos anos setenta o Guilherme Arantes já nos alertou.
Perigos há por toda parte e é bem delicado viver, de uma forma ou de outra.
Vamos de delicadezas.
Lembrei daquela brincadeira de quando eu era criança:
Fazia com uma das mãos o V ao contrário e com a outra estendia o indicador sobre a metade do V ao contrário e perguntava aos amigos:
O que é isso?
Eles diziam Não sabemos.
E eu respondia:
É A RRISCADO.
Posicionava as mãos da mesma forma, mas agora ficava com o A pulando.
E agora, o que significa?
Um A Saltante.
Brincadeira de criança que ontem me deixou ainda mais reflexivo.
Lembrei-me quando entraram na minha casa e levaram um quilo de carne e deixaram a margarina no chão.
É violento o ato e é violenta a reação de impotência frente ao fato de terem entrado em casa.
Quando não há remédio, remediado está.
Volto a questão de ter uma vida financeira razoável para dizer que a gente compra outro celular com um chip novo, paga em vinte e uma vezes e segue a vida.
Lembre-se que vivo falando que a nossa vida é essa, cheia de possibilidades alegres e outras nem tanto.
Não nos ferimos e isso é substancialmente importante.
O dono do braço com moletom é mais um entre tantos, de tal forma que a empresa que trocará o vidro do carro tem vários funcionários e só podem atender amanhã, porque cada funcionário tem cinco atendimentos só hoje.
Ele é mais um e não sei qual é a sua fisionomia e não sei qual o seu gosto musical.
Eu, louco pelo controle, nem me descontrolo pois já tenho a experiência dos setenta anos.
Controlo os meus nervos e sigo arteando, como ontem me lembrou o indígena Krenak:
A arte é o Nosso Refúgio.
Como é adorável tomar um banho quentinho nesse frio quase inesperado.
Os indígenas tomam banho de rio gelado e sempre.
Um sossego me pesca
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