Espelhômetro
Andando na minha direção, um homem mais velho do que eu.
Calças jeans, camiseta e tênis.
Observei a face do senhor e me pus a lembrar, como já fiz tantas vezes, do jornalista no programa da Hebe se vendo no monitor.
Ele disse:
Hebe, eu me vendo no monitor, não me vejo.
A minha cabeça ainda é muito mais jovem do que essa carcaça.
Reflexão pertinente para quem tem setenta.
Porém, quando penso nisso, continuo achando muito massa o vestuário.
Ontem restaurei uma imagem de São Francisco, que com o vento foi arremessada de uma prateleira e se quebrou em sete pedaços.
Um quadro na mesma prateleira saiu voando, bateu na imagem e ambos foram ao chão.
Na peça tive que agregar massa de biscuit para completar os pedaços faltantes.
Vou tendo que acrescentar algumas coisas positivas nos meus pedaços faltantes depois de algumas pequenas quebras no percurso, mesmo sendo muito abençoado pela providência.
As imperfeições vão sendo aparadas pelas convivências e pelas motivações de desejos para que eu me expresse criativamente.
Imagino minha irmã na tribuna.
Minha irmã na contabilidade.
Meu irmão na diversão com os pequenos.
Meu outro brother às três da matina.
Eu observando com a minha visão elétrica e ainda meio desatenta.
Atenção desenvolvida por uma espécie de ciência do espírito, que me aproxima tanto de pessoas inkíveis, que me enchem de ânima.
As pessoas mais jovens do bairro, cheio de agências e escritórios, vão passando por mim e sou eu a desviar das bikes na contramão.
Enquanto eu pedalo, ouço a canção que fala que ele enquanto engoma a calça vai me contar em canto, dizendo que cantar é como não se esquecer, é igual a não sofrer, porque a vida é que tem razão.
Falando nisso, perguntei a uma mocinha no intervalo:
Oi, você está bem?
Ela me respondeu sorrindo:
Estou Viva.
Aprendi depressa a chamar a Realidade.
Viva
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