Provável

Provavelmente se eu esperar um minuto para sair de casa eu perderia oportunidades.
Com os pés na rua encontrei o sinal verde para pedestres e já atravessei correndo.
Pronto, já estava aceso.
E me pus a caminhar ligeiro até a academia.
No caminho pensei em algo que comentei em casa.
Quase sempre eu falo sobre as crianças que são motivadas fazendo atividades que aguçam sua sensibilidade.
Um jovem não teve a oportunidade, em Quatorze anos, de conhecer um gibi.
A professora ao preparar a avaliação de gramática da língua portuguesa, colocou numa das questões uma tirinha.
Inclusive elas acontecem cotidianamente nos jornais.
O jovem não teve a oportunidade de conhecer e ao ler a questão da prova que pedia que ele identificasse o predicativo do sujeito na frase do primeiro Balão, ele não acertou de primeira.
Intuiu que o Balão fosse aquela coisinha meio oval em cima do personagem.
Pediu-me para que chancelasse a sua intuição.
Não tem nada demais ele não saber o que é um balão numa tirinha, mas lhe ficou faltando alguma coisa.
Esse conjunto de coisas que vamos acumulando na memória consciente é até na inconsciente, a gente chama de repertório.
O motorista do uber, já aposentado do Banco do Brasil como economista, me falou bastante sobre as aulas particulares de matemática que ele ministrou para formandos de faculdades de economia.
As pessoas passaram de ano e se formaram com ele, o motorista, elaborando o trabalho para os formandos.
Disse ele que todas as vezes alertou os pais que no Mercado de trabalho eles não sobreviveriam.
Faltou conhecer, se aprofundar.
Por isso muitas vezes nem é necessário fazer uma faculdade.
Autodidaticamente pessoas que gostam de conhecimento e aprofundamento vão em busca e se especializam.
Claro que a Universidade propõe vários engajamentos profissionais importantes de tal forma que um ano antes de formado eu já iniciei com aulas no Colégio onde estou há quarenta e um anos.
Questão de engajamento que a faculdade me proporcionou no dia que fiquei sabendo que alunos de semestres posteriores poderiam ter bolsa de estudo se fossem auxiliares dos professores efetivos.
Inscrevi-me e fui aceito do segundo ao último semestre.
Nesse processo me aprofundei com Antonio Celso Sparapam, Nelson Lerner, Regina Silveira, entre outros artistas brasileiros e Mestres fantásticos.
Já no trânsito da Faria Lima eu fico sempre perto do motorista e no primeiro quarteirão com o ônibus parado ao lado de uma banca de revistas, dois motoqueiros, um atrás do outro, vieram da calçada e fecharam o ônibus.
O Motorista observou:
Olha isso.
Um dos motoqueiros em velocidade tentou atravessar a ilha do meio da avenida.
Uma moça que vinha tranquila num carro prateado bateu na lateral da moto.
O motoqueiro estragou o dia dele e o da moça.
Provavelmente ele não sofreu ferimentos graves, mas deve ter sido levado pelo resgate e a moça registrado um BO com a polícia que chegou no local.
Vou pensar que o aumento significativo e exponencial de acidentes com motos se deve ao fato dos entregadores precisarem fazer muitas entregas para tirar um trocado no final do dia.
Tudo bem, mas e a vida dessas pessoas?
Ah as oportunidades.
Coisa bastante complicada num mundão cheio de discrepâncias sociais e desigualdades.
O fato é que sou privilegiado.
Posso ficar sentindo, pensando e expressando tudo isso que vou observando mais atentamente.
Um privilégio para poucos, mas que eu procuro estender na medida que vou conhecendo mais gente.
Ontem de manhãzinha quando passei pela catraca de entrada do Colégio uma micro menininha vestindo seus óculos me disse:
Olá Bom dia, eu sou Jéssica.
Olá Jéssica, você amanheceu meu dia muito, mas muito mais feliz



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