Incidental

Quando recebo uma notícia muito triste.
A minha primeira reação é ficar sem reação.
Não sei me expressei bem, afinal eu me pego pensando na situação.
É uma reação ante a ação devastadora.
Quando a minha última fala é dizer que rezarei pela pessoa, isso me deixa inquieto, parecendo a mim mesmo que poderia fazer mais.
Claro que vou rezar, mas a minha reza é ficar meditando sobre a ausência.
A pessoa vai se ausentar para sempre do convívio de pessoas que a amam incondicionalmente.
Porém essa condição da ausência nunca está nos planos de alguém.
Nesse caso específico a minha proximidade relativa é com a pessoa que ficou, a que ainda está.
No geral a reza eu devo voltar aos que ficam.
A tristeza, a dor que dói de forma quase inimaginável para mim, que estou momentaneamente bem e disposto.
O meu pensar sobre o meu sentir já é coisa corriqueira, mas nesses casos o meu pensar é mais giratório ainda.
Não sei o que pensar e ao mesmo tempo penso freneticamente.
É certo que a ausência definitiva é a única coisa que realmente temos certeza nessa vida, porém há que se ter uma preparação absurda para receber o baque.
Tentei a semana passada inteira, ligar para o consultório do meu médico de confiança.
Hoje, na minha hora do almoço passo rapidinho pela casa onde funcionava o consultório e vejo na porta um papel que dizia:
Mudamos para o número 62.
Na casa o portão é elétrico, toco a campainha e o portão se abre.
O nome do meu doutor ainda não está na placa.
Anotei no meu celular e agora as recepcionistas marcam a hora pelo WhatsApp.
Naquela hora o doutor estava sozinho e a moça já me pôs para ser atendido, afinal eu só ia fazer o pedido dos exames de rotina.
Na conversa com o doutor ele me conta que mudou de endereço devido ao falecimento do seu companheiro de consultório.
Ele fumava muito aos 73 anos, pegou uma pneumonia e veio a óbito.
Agora o doutor está no consultório de um amigo de turma da Medicina.
É uma ausência sentida para os doutores da mesma rua.
Eu não o conhecia.
A moça que citei no início desse texto estava morando nos E.U.A do norte.
Tenho para mim que todas as ausências um dia são minimizadas pelo menos em parte, afinal ninguém conseguiria seguir adiante se assim não fosse.
Existem vários casos onde alguém não consegue superar.
Ao escrever vão se apresentando várias palavras que de alguma maneira podem esclarecer a minha primeira reação e as posteriores, quando recebo uma notícia triste de um passamento.
Ausência e superação, permanência e dor, insistência e ânimo, tristeza e esperança.
Evito pensar sobre essa certeza, mas quando eu era mais moço pensava demasiado.
Muitas vezes de forma exagerada mesmo.
Ultimamente penso que na velhice eu de alguma forma misteriosa vou me preparando.
É interessante.
Ontem mesmo pensei que eu que adoro me colocar disposto a escrever um parabéns pelo aniversário, um alô para quem me aparece na rede, uma ação imediata com palavras e imagens para quem eu julgo precisar, comecei a notar que os meus amigos de idades próximas vão sumindo.
Pensei ligeiramente, mas nem sei se é real, já que ontem mesmo, aqui no clube, encontrei meu amigo de colégio e minha amiga de Arte, que são adeptos da mesma veia, ou veias artísticas e jos cumprimentamos entusiasmadamente.
Quando precisamos comprar uma pequena joia para a netinha que chegará em janeiro, outra amiga da época da faculdade foi acionada e já estamos com a peça em mãos.
É assunto ora mais de metro, mas o certo é que continuamos remando e oferendo nosso ombro para um conforto passageiro pra quem fica.
E quem fica tem que remar mais e mais.
Estou pedalando e me motivando a sentir bastante.
Muitos artistas afirmam que produzem melhor na angústia e na melancolia.
Eu só produzo no bem estar.
Um dia doutor Henna me disse:
Você pode comer de tudo, mas pouco

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A saga das palavras

Rima

Todos