Cálculo
Não é a mesma coisa calcular o preço e calcular o valor.
Meus desenhos não têm preço porque coloco neles um valor imensurável.
O valor é tão grande que na maioria das vezes eu faço dele uma doação.
E ofereço de bom grado.
O que eu tenho é apreço pela pessoa que vai receber a obra.
Adoro saber que Ópera é uma palavra italiana que em português significa Obra.
O processo que dá origem à obra é um ritual.
No meu caso não é programado.
A única programação é o material do suporte e o seu formato.
Por exemplo as bolsas do Marcelo que ele me empresta para que eu desenhe sobre elas.
O formato da peça vai me sugerindo as figuras e as figuras, os grafismos.
Assim é.
Não encontrei ainda alguém que use os grafismos exatamente como eu faço.
E veja que muitas pessoas me mandam desenhos que elas acham semelhantes.
Mister Doodle por exemplo.
Keith Haring, os japoneses, enfim.
Todos eles trabalham com repetições de grafismos, mas cada um tem seu jeitão e todos diferentes entre si.
É como ouvir a voz da Zizi Possi, da Gal, da Ivete, da Eliz, do Lulu, do Frejat, do Chorão e da Nana.
Essa identidade é ter a chance de costurar, tricotar, ou crochetar com as linhas.
No caso das vozes, fazer tudo isso com as notas.
Um delicioso balé de entrelaces, ou justaposições de figuras, ou sons.
Isso tudo instaura na delícia um valor imenso.
Para mim é pesaroso colocar um preço.
Lembrei de um pequeno curso que fiz no Senac, onde o professor deu uma dica:
Artista, trabalhe com algo que nada tem a ver com a sua vocação artística, com o seu fazer. Artístico.
De preferência trabalhe com algo que seja o oposto do fazer artístico.
Faz tempo e já naquela época consegui compreender o que ele queria ensinar.
Para ganhar algum dinheiro, adoro ensinar as coisas relativas à Arte para a juventude.
O meu trabalho de Artista desenhista é para ser oferecido. Doado para a fruição do outro e a partir desse, tantos outros.
Muitas pessoas discordam enormemente desse meu conceito, mas assim tenho feito.
O último painel foi um pedido do meu filho, usando a fotografia que minha nora fez no Peru.
Executei a ideia dele que me pediu que da esquerda para a direita do painel, eu fosse transmutando do Expressionismo para o Impressionismo, depois para o Realismo, logo após para o Surrealismo, terminando com o Cubismo.
Por acaso quase todos os movimentos foram expressos em pintura, mas o Surrealismo foi feito com minhas figuras e os meus grafismos.
Não existe prazer tão gigante como apreciar o painel na parede da sala onde os parentes e amigos se encontram.
O valor não pode ser medido, mas é gigantesco.
Que nos cerquemos de pessoas valorosas.
Aquelas cuja proximidade física, ou espiritual não têm preço.
Essa proximidade é semelhante ao encontro solitário do artista com a criação da sua obra.
Ontem ouvi uma fala do saudoso Walmor Chagas sobre as ações do artista solitário, encadeando com a ideia que quando estamos com nós mesmos, nos deparamos com a ideia da morte e é por isso que desembestamos a fazer coisas para afastar de nós o pensamento realista.
A entrevista é antiga.
Hoje eu penso que resta apenas a solidão da criação, como um momento único e tão único, que quando estamos quase terminando uma obra, já estamos pensando na próxima.
Assim desenrolamos nossa existência e nos apresentamos para mais um passo adiante.
Vida para ser vivida e servida com afeto e carinho, força e generosidade.
Estou pensando que dentro do armário lá de casa está guardada uma tela branca
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