Anseios
Ontem à noite eu digitava no meu celular com ele plugado no carregador.
De repente aparece uma mensagem assustadora na tela:
Seu celular está aquecendo e você deve desligá-lo em 10 segundos.
Sem mais delongas, fui desligando e tentando religar por mil vezes.
Fui dormir já pensando em acordar.
Rio porque também sou adestrado pela máquina.
Acordei e às oito e trinta a moça atendente da Sansung passou um scanner no aparelho e me garantiu:
Morreu não, mas respira por aparelhos.
Você não vai conseguir nem transportar os seus dados.
Às dez eu já estava na loja da operadora comprando uma nova máquina.
Abençoada seja a época onde o digital consegue quase recuperar o irrecuperável.
Já estou a escrever na coisa nova e com os mesmos aplicativos preferidos nas minhas mãos.
Apagador de fundo, fazedor de figurinhas, colagem de fotos, bloco de notas e as redes.
Rio porque o artista não para de criar a partir dos detalhes que vão se sucedendo.
O papel de parede novo é uma composição de fotos das pessoas familiares, feita com justaposição de fotos recolhidas dos álbuns digitais.
Tudo é possível dentro do tempo que me garantiu até agora.
Ao redor de tudo o tempo ainda proporcionou que o moço viesse montar uma sapateira.
O que eu mais temia eram as coisas dos dois bancos que me depositam as aposentadorias.
Até isso o digital já resolveu com velocidade sennica.
Rio porque adoro os neologismos e o que eles são capazes de agitar na cabeça de quem me lê.
O meu cuidado é acompanhar as sutilezas e as destemperanças da mutação tecnológica, afinal professo.
Eu fui o primeiro a perceber a minha eletricidade intensa e juro que entre uma viagem de ônibus e uma de carro, fui meditando sobre a suavidade dos caminhos.
Lembrei da frase que a moça da farmácia falou para a cliente:
Calma, eu não sou máquina
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