Painel
Eu não ia começar o texto por aqui, mas daqui eu vejo o painel que acabei de aprontar.
Sim, aprontar, deixar pronto e ponto.De repente esse ponto nunca é um ponto final.
Vários pontos de interrogação e exclamações.
Recebi um pedido da família para pintar uma paisagem peruana fotografada pela Júlia, que desenvolveu a tese de mestrado sobre o país sul-americano e esteve na Universidade de Lima.
A medida era bem específica devido ao arredondado da parede da sala.
É claro que a história da compra do painel é Providencial.
Entro na loja onde o moço já me garante que eles não fabricam mais telas.
Hoje eles apenas revendem as telas.
Pergunto se havia uma tela painel de um metro e vinte por quarenta centímetros.
A resposta foi negativa e para não ficar sem levar nada, comprei um grafite 6B e um pincel redondo.
Quando estava quase saindo da loja, vejo em cima de uma pilha de latas de tinta, um painel comprido sem o plástico de proteção.
Exatamente.
Um metro e vinte por quarenta.
Agora ela está toda pintada.
Esse processo demorou muito tempo, num passo a passo bem devagar, começando pelo desenho da paisagem.
A ideia do meu filho que coloquei em prática era colocar na mesma paisagem alguns movimentos artísticos em sequência.
Da esquerda para a direita, Expressionismo, Impressionismo, Realismo, Surrealismo e Cubismo.
Gostei bastante do resultado.
De outra forma nem estaria escrevendo sobre ele, mas como escrevi no início, não era assim que eu tive a ideia de começar esse texto.
Lavando a loucinha da pia fiquei pensando sobre o vácuo que acontece entre o processo de realização de uma peça e depois que ela termina.
Dizendo melhor, pensei no depois da obra pronta e o espaço assombroso do depois.
Por isso fui lavar a louça.
Há um desejo grande em começar algo novo, uma nova investida.
Por acaso sujei um pedaço da calça que já tem uma perna desenhada.
Na outra perna se alojou a mancha.
Pronto.
Agora a mancha já se tornou um ornamento com sobreposição de grafismos feitos a caneta para tecido preta.
Porém isso aconteceu antes da minha reflexão.
O pensamento não cessa.
Além de tudo hoje é domingo e sempre achei o domingo estranho.
O dia fica parecendo uma rede de balanço, para um ser ansioso.
Rio porque sei exatamente o que é ócio criativo, mas ele passa longe de mim.
Claro que estou rindo sozinho novamente.
A minha sorte é que eu gosto de me expressar artisticamente por alguns meios diferenciados.
Desenho e pintura, música e literatura, por exemplo.
Enquanto escrevo eu vou diluindo aquele pensamento mais assustador.
Uma espécie de prova que a literatura é uma válvula de escape interessante para mim.
Saio do sofá, com o celular na mão e vou ver de perto o painel pintado.
Realmente gosto do que vejo.
Ficou bonito e consegui fazer a integração dos movimentos de forma amalgamada.
Isso não é garantia de que sempre é assim.
Às vezes a expressão não apresenta um resultado que me agrada e é assim que nenhuma outra pessoa vai conhecer o que saiu da minha existência.
Muitas vezes as pessoas acham que a gente acerta sempre fazendo Arte.
Os mais jovens, os alunos, parecem ter certeza que as pessoas com algum talento não erram na tarefa.
Pensam que o tal dom é algo irretocável.
Tantas pessoas publicam postagens sobre isso, mas é certo que o erro faz parte do aprendizado e aprender demanda tempo e interesse.
O painel que se apresenta é esse
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