Vocare

A voz.
Quando alguém está num lugar e eu começo a falar - coisa não rara - a pessoa me reconhece pela voz.
Sempre fui muito tímido e falava apenas com os mais chegados.
Os amigos artistas do colégio.
Eles são amigos até hoje e não saberia dizer se prestam atenção à minha voz.
Fico pensando que esse meu aparelho vocal me ajudou e ajuda muito na tarefa prazerosa de ensinar e aprender.
Curioso que quando cheguei na faculdade de Artes plásticas, ainda bem tímido, consegui ser auxiliar dos professores até o último semestre.
Os professores passavam todas as informações teóricas e eu ajudava os alunos na orientação sobre a confecção dos trabalhos práticos.
Desde o princípio tive predileção pela Cultura Maker, a cultura do fazer.
Não me lembro se já havia a sintonia dos alunos com a minha voz nessa época de estudos.
Sei que em mil novecentos e oitenta e três essa conexão passou a ser primordial.
Minha primeira escola foi uma Escola de Desenho.
Pensar que a palavra vocação vem de Vocare, que significa atender ao chamado da Voz, desde sempre Ela me chamou para o desenho e para o professorado.
Ensinar e aprender.
A voz traduzida em pontos, linhas e traços para que eu pudesse conversar com as diversas vozes dos outros.
Ontem um aluno me perguntou se no meu curso de desenho eu privilegio a estruturação realista.
Para isso eu emito vocalmente aquilo que é bem básico, qual seja, que todos podem aprender esse regramento no YouTube.
Ali existem vídeo aulas explicativas no passo a passo, que todos podem copiar muito bem.
Eu disse a ele que o segredo é a exaustiva tarefa do Desenho de observação.
Olhar e fazer, olhar e fazer e olhar e fazer.
O resultado do trabalho dele no exercício de ontem foi fenomenal.
A tarefa era, a partir de uma estrutura do corpo humano preenchendo a folha, o aluno deveria recheá-la com elementos como frutas, verduras e objetos os mais variados.
Ele produziu uma figura cubista, totalmente original, ou seja ele substituiu as Coisas pelas Formas geométricas irregulares.
A minha prioridade é a Invenção, o desenho original, apesar das pessoas ainda acharem que quem desenha bem é quem faz as imagens iguaizinhas a tal Realidade.
Embora ainda seja assim, hoje as percepções têm ganho bastante ao valorizar o intuitivo e o criativo.
Porém meus alunos ainda são muito jovens e aos poucos vão valorizando a própria voz.
Interessante notar que a valorização das coisas culturais ainda é coisa de poucos.
Por mais incrível que pareça a voz do racional ainda faz mais barulho do que a voz da sensibilidade.
É muito mais fácil, acordar, comer, trabalhar, comer, se reproduzir, dormir, acordar, num círculo vicioso mesmo, que enaltece o vício pelas ações mais fáceis
Ainda estamos engatinhando, mas estamos dando voz aos que jamais tiveram voz na nossa sociedade consumista.
Hoje existe a expressão Lugar de fala.
Como se deu o meu processo de passagem da total timidez para o meu falar abundante eu jamais saberei explicar.
Já escrevi aqui que agradeço muito porque sou muito abençoado e esse processo com certeza também é uma benção providenciada.
Lembrei-me que passei o ano de mil novecentos e setenta e sete inteiro desenhando com caneta Nanquim preta sobre cartolina nos tons pastéis.
Era algo intimista onde eu conversava comigo mesmo e as vozes eram transportadas pela minha mão direita para o papel.
Juro pra você que não havia pensado nisso, mas o trabalho mais emblemático dessa série chama-se Vozes.
As imagens sempre brotaram sem que eu racionalizasse muito.
Eram influenciadas pelo Surrealismo do inglês  Roger Dean, que fazia as capas dos álbuns da banda Yes, mas não eram cópias das mesmas.
Os Grafismos me seguem até hoje, porém as imagens são mais maduras.
Hoje eu acabo por selecionar cinco ou seis grafismos para, junto de um conjunto de olhos, compor as imagens finais.
Fui um dos ilustradores dos textos literários do Suplemento Cultura do Jornal O Estado de São Paulo. O pessoal da redação gostou das ilustrações porque quando eles viam os desenhos, já sabiam que eram meus.
E sabiam que eram meus por conta da relação quase literal do texto escrito com a imagem.
Houve um poeta especial que sempre pedia que eu desenhasse sobre os poemas dele.
Isso é conhecido como estilo e é outra coisa que a gente não sabe como nasce.
Nasce, ou já veio no gene?
Minha voz interna emudece sobre essa questão.
De tanto escrever essas crônicas rodoviárias e as guardasse escritas num blog, as pessoas começaram a pedir que eu as lesse.
Soltasse as palavras presas na tela, usando a minha voz gravada em áudios.
Pessoas também pedem que eu as publique em livros.
Confesso que todas essas formas de comunicação dos textos me são bem caras.
Eu gosto de todas elas, mas vibro mais com o ato obsessivo de oferecer voz externa à minha voz interna através dos textos e das imagens.
Namastê.
Minha vocação saúda a sua vocação

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Todos

Rima

Vídeo Game