Descanso

Moço, este cartão de débito é seu?
Não, é da Gessica Lorena.
Sei porque era o nome escrito no cartão.
Atravessei a rua e deixei o cartão na lotérica, já que é um lugar público.
Desejo que ela encontre, ou bloqueie e peça um outro que chegue em dez dias.
Eu também não olhei o nome escrito no cartão e perguntei para um moço, realmente moço, que vinha à minha frente se o cartão era dele.
Obviamente não era, mas foi dele a ideia de deixar o dito num barzinho na esquina.
Preferi deixar na lotérica.
Interessante que faz milênios que não jogo na loteria.
Nem na tal mega da virada.
Estou virando uma página e observando um conjunto de peças reunido numa vida inteira e quase centenária.
Peças de todos os tipos, tamanhos e pesos, que conviveram com as pessoas reunidas em família.
Família iniciada por Walter e Cacilda e seguida pelos três filhos, netos, bisneta e agregados.
As peças têm várias histórias e como toda história, faz mais ou menos sentido para uns e nem tanto para outros.
Parece-me com aquela questão sempre levantada que fala sobre:
Como cinco filhos podem ser tão diferentes se foram criados na mesma casa?
Nasceu o primeiro rebento, foi para a casa e os pais estavam numa condição que lhes permitia boa comida.
Nasce o segundo e já havia o primeiro, o que modificava a condição e assim por diante.
Na hipótese que afirma que a condição financeira era a mesma, ainda assim o primeiro foi pego no colo por alguém estranho a ele, já o segundo só teve contato com a mãe e novamente: Assim por diante.
Mais crescidos então, cada ser entrou em contato com tantas realidades diferentes a partir da vizinhança e principalmente na escola, que não há como um filho ser igual ao outro.
Assim como não há um humano igual ao outro.
Hoje existe a decodificação do DNA e com ela as probabilidades genéticas todas.
Das benignas à aquelas outras, a princípio indisíveis.
Pessoas lidam com copos de cristal de maneiras diferentes.
Eu cheguei a comprar geleias em copos só pra usá-los para beber água.
Comprei potes de sorvete coloridos para congelar feijão e legumes.
Outros têm horror a esse tipo de atitude.
Pessoas conviveram com quadros na parede, alguns originais, outros reproduzidos e todos com molduras.
Alguns gostam e têm lugar para colocá-los, outros já produziram os seus e além dos seus têm os dos amigos.
Louças de diferentes tipos enchem os móveis de todos os cômodos e também são diversas.
Com filete dourado, sem filete, pesadas e leves, fininhas e robustas, enfim, de todas as formas.
Porta-retratos com variadas fotografias, mas as que eu mais gosto estão todas reunidas num painel tamanho A3 de metal.
Todas as pessoas em diferentes fases da vida, uma grudadinha na outra e às vezes com pequenas sobreposições.
Um conjunto bonito que me traz o sentido que preconizou o Sebastião Salgado.
Fotografia é Memória.
A coleção de reproduções das aquarelas da Margareth Mee sempre me trouxeram uma lembrança que tive apenas pela leitura da sua biografia.
Ficava muito tempo na frente do quadro, observando os detalhes e imaginando ela, no momento da observação daquela flor, registrando com o seu pincel os pistilos, as pétalas e o caule.
Como se fosse eu a estar naquele momento memorável.
Fico assim quando vejo o banco da praça pintado pelo Van Gogh que está no MASP.
Fico muito tempo afirmando:
Foi ele que deu essas pinceladas.
São momentos mágicos.
Feito aqueles que eu estava sentado no sofá que fica olhando a porta de entrada e via dona K crochetando mantinhas e cobertores, combinando lilás, roxo e creme, numa habilidade que caminhava lado a lado com a de fazer biquinhos para toalhas.
E o ponto-cruz maravilhoso?
Capricho.
A neta fez duas Nossa Senhora Aparecida, que até escrevi assim por serem singulares.
A neta e as Obras.
Amigurumis que enlaçam as Matriarcas com o Divino.
As duas Santas estão em lugar de destaque nas duas casas familiares.
Essa vida está longe de ser um jogo.
É uma vida pra ser vivida na responsabilidade que compete a cada um.
Esse um auxilia a todos e todos auxiliam o um.
É assim que, mesmo que de longe não pareça, a família funciona.
Quando uma pessoa consegue ter a força da Mulher, ou do Homem-Aranha ela agrega mais responsabilidade.
Meu cartão é de débito com todos e ainda tenho algum crédito com aqueles que me cercam


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