Cabeça irmã
Quando a minha neta diz, após ter pedido desculpas porque achou que desligou o celular na minha cara, que a ligação feita pelo celular não se desliga, porque nenhuma ligação é eterna, o raciocínio que está sendo usado por ela é de uma categoria externa à objetividade mundana.
A mesma categoria de raciocínio usada quando o menino diz ao pai, que estão construindo um Terreno, enquanto os dois observam a demolição de uma casa.
Quando pessoas vêm figuras nas nuvens, nas manchas da parede, ou nas borras de café no fundo da xícara, o raciocínio vem da mesma fonte.
Quando uma menina, instigada pela proposta de construir um Cartaz de Procura-se, escreve que está a procura de Respeito e a recompensa é a Paz, acontece da mesma forma.
Quando o Pablo diz que se fazer Arte não for uma tarefa fácil, é impossível, ele fala do talento artístico, pelo qual algumas pessoas são dotadas e outras se esforçam por arriscarem-se na técnica.
Quando o Matisse diz que aquilo não era uma mulher, mas uma pintura, ao ser interpelado por duas senhoras que insistiam que não existia uma mulher verde, a razão cede o seu lugar para a alegoria, para o lúdico e para o lírico.
Quando o Paul diz que não representa o Visível, mas Torna Visível, ele nada mais faz do que evidenciar que a Pessoa produz alguma coisa nunca vista pela humanidade e esse momento de toda maneira é Crível, mesmo que achemos Incrível.
Quando o Manoel diz que a poesia está na antevisão e esta tem a ver com as insignificâncias, ele fala do cantar do musgo na pedra, como também fez a querida Violeta Parra.
Quando o artista tem que ir onde o povo está, o Milton luta pela ideia de que toda a população do planeta é capaz de fruir Arte.
De se emocionar e de conversar com ela.
Quando o Arthur Bispo tece o seu manto e sua cama com restos encontrados no seu local de morada, ele está ciente que ouviu a voz de Deus pedindo a ele que assim fizesse.
E não só.
Pediu que depois do seu passamento alguém lhe vestisse com o manto e o colocasse na cama.
Veículo que o levaria ao encontro do seu Deus.
Quando os deuses astronautas escavaram rochas construindo casas subterrâneas a gente fica só pensando que não existiam ferramentas na época que poderiam realizar tal proeza, sabemos que uma outra natureza de raciocínio se encontra presente.
Quando a rudeza do tecido, ou da madeira ensinam ao autor o caminhar dos traços, não é a coisa que ensina, mas a pessoa que vê.
Quando ver é a delicadeza do tato, a gente entende que quando não se tem o sentido da visão, os outros sentidos ficam acesos.
Quando no círculo de pessoas é colocada uma cadeira no meio da roda e o mediador pergunta: o que é isso?
Oitenta por cento das pessoas respondem: Uma Cadeira e o restante responde ser A Espera, ou então que Eles vêm a Poesia do Objeto.
Mais uma vez o raciocínio diferente se apresenta.
Muitas vezes e em muitas ocasiões me vejo nesse mundo como um E.T., mas não procuro a minha casa.
Sei que a minha casa é aqui e insisto em me relacionar com os fora da casinha.
Repare que essa expressão usa o substantivo no diminutivo.
Nós gostamos do aumentativo da casa.
A Nossa Casa da Razão Mágica.
Quando o Guto faz uma Escultura que une um ferro de passar roupa com a base para cima e deposita sobre ela um ovo frito, ou o Duschamp coloca um urinol no pedestal dentro de um Museu, as ideias são maiores do que a nossa vã filosofia.
Quando a gente pensa que não há mais nada de novo, o novo é agora.
Quando Sandra diz que ela se emociona com o simples ato da pessoa estar fazendo alguma coisa artística e isso para ela é a comprovação do novo, todos nós temos que admitir.
Para quem é velho, resta a conexão do sem espelho em casa, ou então a conexão com a pessoa que se vê refletida no mesmo espelho.
A escolha é do artista e quando eu escrevo isso, tenho certeza que a diferença do rabo do cavalo que pinta, para com as pessoas que pintam, é justamente a Escolha.
Quando escolhemos temos a possibilidade da liberdade, como de alguma forma a película Homem com H nos mostrou.
Quando o nosso raciocínio está conectado a tudo que para a maioria é imperceptível, a minha reação é tentar aproximar a maioria.
Quando a modinha é cuidar de bebês reborneres, o Lancelotti se aproxima dos que são muito pobres e passam fome.
Quando a gente escolhe a gente não encolhe.
Daqui eu vejo um pedaço de embalagem de chocolate jogado no chão, onde todo mundo pisa.
Ele é fosco por fora e brilhante por dentro
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