Setas
Olho para baixo.
Estou na frente da porta de vidro do metrô esperando para embarcar e vejo a seta apontando o sentido contrário do meu.
Lógico.
Ela mostra o sentido do desembarque de passageiros.
O embarque deve ser feito pelas laterais do grande retângulo destinado ao desembarque.
Tudo isso faz sentido.
Na porta do apartamento do André há uma placa onde está escrita a frase:
Se faz Sentir faz Sentidos.
Faz todo sentido.
Não sei se faz algum sentido, mas quando ouço ou vejo essa frase, me lembro do título do livro do Arnaldo:
Tudos.
O aumentativo.
O superlativo de Tudo faz todo sentido na mente do gênio e ele jogaa batata quente nas nossas mãos.
Enquanto a batata vai pulando de uma mão para a outra vamos esfriando a sensação e chegando a conclusão que mesmo com um grande problema, temos a capacidade de solucioná-lo a contento.
Agora, ao desembarcar na estação República, saio no sentido que a seta orienta e percebo que o grandioso retângulo onde ela está é margeado pela faixa azul em cima e pela faixa amarela, embaixo.
A azul indica o caminhar dos deficientes visuais e a amarela indica que não devemos transpô-la quando estivermos esperando para embarcar.
Faz sentido pensar que o verbo Embarcar refere-se ao ato de entrar num barco, provavelmente para atravessar um rio, de uma margem a outra, na ausência de uma ponte.
Já o sentido de pontear está restrito à viola.
Calma, não nos apressemos.
Pontear também existe no sentido de fazer pontos para marcar o alinhavo num tecido, ou mesmo marcar com pontos, pontilhar.
Quando Israel de Paula Ponciano descobriu o bico de pena e o
nanquim, tornou-se Mestre nos retratos feitos com pontilhismo.
Milhares de minúsculos pontos dando forma à figura.
O Pontilhismo também faz sentido quando o movimento é o pós impressionista.
No Impressionismo os artistas depois de muito pintarem dentro de seus estúdios saíram para o ar livre.
Naquele momento o ar era livre.
Desejavam captar a luz em tempos modernos, onde a ciência já estava pensando na foto-luz e na Grafia-gravar, anunciando que todas as cores saltavam aos olhos através dos feixes verde, azul e vermelho.
Os artistas pontilhavam com todas as cores possíveis na tentativa de retratar as várias fases da luz do sol durante um dia inteiro.
Foi com essa tentativa e êxito que o senhor Monet pintou várias vezes a mesma cena.
Faz sentido a experiência.
Sentir que somos seres sensíveis e os sentimentos devem ser respeitados.
Sentimos através dos cinco sentidos, percebemos, relacionando o que sentimos com as nossas memórias e por fim, sentimos uma vontade imensa de nos expressarmos em desenho, teatro, dança ou música, entre outras possibilidades de expressão.
Faz sentido sermos mais do que nossas necessidades fisiológicas.
Faz muito sentido termos argumentos, refletirmos, analisarmos, confrontarmos nossas ideias com ideias contrárias e sairmos todos ganhando com esse processo.
Não faz sentido a quantidade de guerras promovidas pelo único sentido que lhe é possível.
O trágico sentido financeiro, nada econômico em ganância e ódio.
Ao olhar como passageiro no trânsito de São Paulo eu vi a seta na placa circular indicando o sentido à direita, o que não nos deixou subir por aquela rua e nos fez virar à direita.
Pensei na entrevista do Tom Zé, quando ele ainda criança, descobriu o poder das palavras escritas no papel.
Disse ele que era tímido e solitário e tudo mudou quando a professora pediu a João que ele abrisse o livro.
Ele abriu.
João começou a ler:
José colocou dez laranjas no cesto.
E o Tom Zé espantado!
Como essas palavrinhas tinham tanto poder?
Faziam pessoas agirem, obedecessem ao comando, enchendo o cesto de laranjas e tantas outras coisas.
Para mim faz todo sentido a emoção do Tom, a sua sensibilidade, a sua percepção e o seu expressar-se na entrevista.
Nada mais desnecessária do que a alternativa pergunta:
Qual o sentido da vida?
Uma gíria dos anos sessenta e setenta nos mostra o sentido claramente:
PRAFENTÉX
Comentários
Postar um comentário