Paciência
Eu nem ia escrever sobre nada, mas o nada é tão abrangente quanto o tudo.
Saltei no metrô Barra Funda e saí com passos rápidos para entrar no espaço destinado a vendas de passagens por auto atendimento.
Todas as máquinas estavam travadas, cada uma, num estágio do processo.
Meu engano.
Nenhuma delas estava travada.
Cada pessoa que descobria que o ônibus desejado não tinha mais passagens, desistia no meio do caminho.
Eu não.
Escolhi uma máquina onde já estava inscrita como saída da rodoviária Barra funda e escrevi o destino: Sorocaba, depois cliquei: Próximo.
A gente sempre tem que tocar na palavra Próximo para dar prosseguimento.
Dia, assento, horário.
Três horários esgotados.
Eu é que deveria estar esgotado, já que dirigi desde Gonçalves até São Paulo por quatro horas.
Aumentei uns minutos para dar ênfase no meu esgotamento.
Rio porque ninguém merece o tempo de viagem de ida até Gonçalves em dias de feriado prolongado.
Enfim, há que se ter paciência em dias assim.
Tenho uma hora e dez minutos para esperar meu ônibus,sendonpaciente e esperançoso.
Quando eu descer para a plataforma tenho certeza que o ônibus não estará no horário previsto e o que os moços dirão que o trânsito para chegar em São Paulo está uma loucura, por isso o atraso.
Depois eu confirmo pra você se aconteceu assim.
Em todos os dias a rodoviária é uma cidade folclórica.
Hoje um formigueiro humano.
Eu adoro porque me encanta a diversidade de tipos, sendo que eu sou o tipo mais estranho, claro.
Muita gente levando todo tipo de coisa na bagagem, calçando os mais variados tipos de calçados, vestindo camisas, camisetas, batas, calças, bermudas, shorts, cabelos de todos os tipos e cores.
As cores dão festividade a tudo e não falta nada.
O ser paciente num ser humano ansioso é um Paradoxo.
E paradoxos são muito interessantes, já que parece não juntar uma coisa com a outra e de repente junta.
Esse texto escrito é como o andar na bicicleta parada na academia.
Acaba de sair o ônibus das treze e quinze, às treze e trinta.
O treze é o número da Arte porque é o número da loucura.
Rio porque a Arte é um rio que corre em minha vida e na do Paulinho da Viola também.
Levanto um pouco meus olhos acima do celular e vejo um senhor com um boné preto com a palavra RIO estampada na cor laranja.
Aprendi que a cor laranja é a cor que representa a positividade universal.
Vermelho com amarelo, produzindo uma cor secundária positiva.
Lembrei quando o meu filho relacionou uma cadeira que apresentei para vários alunos num círculo, com a Espera.
Estou fazendo dessa espera uma coisa positiva, esperançosa, afinal uma hora estarei em casa, comendo um sanduba triplo de pão de forma integral com queijo e tomate.
As pessoas por aqui estão agitadas, falam sem parar, em família, em duplas, ou solitárias.
Ou nem tão solitárias assim, já que percebo os fones sem fio nos ouvidos.
Do outro lado da linha, alguém.
Lembra-se de pegar dois copos de plástico, fazer um furo no fundo e amarrar um barbante ligando um ao outro?
E de brincar de telefone sem fio?
A primeira pessoa falava a palavra Pêssego e depois de umas dez passagens a última pessoa falava: Amazonas.
Rio de novo, só que agora com um boné amarelo.
Não estaciona ônibus algum na plataforma Três.
Isso aqui vai longe, mesmo eu estando sentadão no banco sextavado de madeira em frente ao portão de embarque.
E o que acontece, acontece também nos atrasos.
O volume de pessoas vai crescendo, a impaciência vai tomando conta e o estresse aumentando.
Eu aqui na tranquilidade do aposentado, imitando um sujeito que consegue ler um livro deitado numa rede.
Apenas imitando, claro.
Quase no final desse texto eu posso garantir a você que o meu busão das Quatorze horas sairá um bocado mais tarde.
Nada disso errei escandalosamente.
Ele acaba de estacionar na plataforma Três.
Atraso de exatos onze minutos e só.
A vida é assim, somos pacientes em busca de cura e ela se apresenta nesses detalhes alados.
Sim, ela e o tempo, voam e vale a pena
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