Experiência

Vou lhe contar a minha experiência escrevendo enquanto eu bicicleteio na ergométrica.
Quando não escrevo eu fico com os olhos fechados, mas como você sabe a minha mente inquieta fica recheada de conversas internas.
Todas ótimas, mas não desligo dos meus joelhos indo e vindo.
Mesmo com os olhos fechados vejo-os em movimento ritmado.
Enfim.
Escrevendo como agora, a minha atenção fica ardente nas palavras que penso e digito.
Um movimento de reflexão que desembaraça as palavras das ações por mim já vivenciadas.
Um dia muito antepassado, um aluno chegou esbaforido do intervalo e me viu na mesa do professor, escrevendo com Bic azul.
Foi logo me perguntando:
Betu, você vive escrevendo?
E eu respondi:
Não, eu só escrevo quando acontece alguma coisa, mas o grande barato é que Vive me acontecendo alguma coisa.
Fato.
E a memória é amiga do desmbaralhar os acontecimentos em palavras escritas, ou ditas.
Eu falo bastante.
Ando meio econômico nessa tarefa, mas ainda falo um bocado.
Professar é a minha tarefa essencial, apesar de gostar bastante de desenhar e desenhar coisas que transcendem a memória.
Já ensinei que quem escreve à mão, desenha.
O desenho é expressão gráfica, ou seja, é expressa através de ponto, linhas e formas.
Letras têm essa concepção.
Num poema pelo qual fui premiado certa vez foi a evidência disso.
Chama-se A Face.
O Perfil humano era composto por versos, um abaixo do outro, com um espaço maior que eu pretendia um olho.
Falava sobre retratos e retratava o perfil humano.
Esse processo aconteceu antes de existirem as fotos de Perfil das redes sociais.
Um gênio do Concretismo atual, colocou na sua página uma foto de capa cuja imagem é uma Capa de chuva amarela e a foto dele de Perfil, você já imagina.
As pessoas possuem uma imensa capacidade de transgredir o real, mas são poucas as que se convencem disso.
Tantas pessoas já ouvi dizendo que não são criativas.
A criatividade é a transgressão do real, ou da realidade dita nua é crua.
A máquina fotográfica já nos dá a impressão da realidade de mão beijada.
Ela retrata o real de forma muito similar àquela que quase todo mundo enxerga.
De tal forma que no final do século dezenove os artistas sabiam de antemão que deveriam transgredir a realidade proposta pela máquina e hoje, você pode se expressar na antevisão proposta pelo poeta Manoel de Barros, mas não só.
Fazer com que o mundo conheça algo nunca antes visto é uma tarefa que requer apenas intronição desse conceito transgressor.
O cineasta que fez o filme Pollock, filmava o artista Jackson Pollock pintando sobre uma mesa gigante.
Em dado momento o diretor disse pronto, acabou.
Pollock esbravejou:
Espere, EU NÃO TERMINEI.
Está explicadíssimo, ambos os artistas são sensíveis, inteligentes e criativos, porém cada um tem seu tempo e processo que devem ser respeitados.
Eu respeito muito quem diz abertamente que não é criativo, mas há que darmos o tempo necessário para as transformações.
Só agora olhei para o timer da bike e vejo exatamente trinta minutos.
A Arte faz isso.
A gente nem vê passar, nós vemos transpassar, repassar até sermos movido novamente para o nosso estado simplesmente humano físico.
Já são trinta e três minutos e a Arte não sossega.
Aquela história que diz que somos instrumentos a serviço de algo maior pode até ser verdade, mas teremos que esperar para comprovarmos cientificamente.
Por enquanto a gente só se diverte

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