Calor
Acho graça no movimento que os passageiros fazem no embarque aqui na rodoviária.
Tanto faz a cidade.
Hoje é aqui em Sorocaba.
Pessoas circulam, andam daqui pra lá e de lá pra cá pra passar o tempo.
Falam nos celulares, vêm imagens e tudo isso à espera do motorista.
O ônibus já está na plataforma.
O letreiro avisa que o ônibus sairá para São Paulo às oito horas.
Acho graça quando o motorista chega e encosta no seu púlpito para conferir as passagens.
Acho mais graça no tumulto.
Noventa por cento das pessoas se aglomeram junto ao motorista, num desespero que parece que todos vão ficar sem assento.
Logo me vem à memória a minha estratégia em grandes almoços com bastante gente, sejam parentes ou não.
Tenho certeza que tem comida para todos e em imensa quantidade.
Porém, no primeiro aviso que indica: A mesa está posta!, uma avalanche de famintos ataca os pratos e talheres e se põe a serviço.
E eu lá, sentadão tomando.minha água mineral.
Quando sobra uma ou duas pessoas ao redor do mesão eu me levanto e me sirvo.
Muitas vezes um prato ou dois.
Às vezes três, rs.
É interessante observar que toda essa espécie de desesperados não é classificada por faixa etária.
Tem desesperado de todas as idades.
Anteontem numa classe nós cantamos a Vida é bonita, é bonita e é bonita.
Viver e não ter a vergonha de ser feliz, apesar de tantas amarguras e tristezas.
Apesar de tantas coisas parecerem não ter lógica, ou sentido, vivemos a observar estranhezas.
Fiz questão de usar a palavra estranheza porque tenho visto e ouvido algumas pessoas bem jovens dizerem que fazem parte do grupo dos estranhos.
Outro dia me alinhei a um desses grupos e disse claramente:
Eu sou estranho!
Apesar de saber que sou caretérrimo, super normal e comportado até demais, sou estranho, às vezes muito estranho.
E que lindeza ser estranho no meio de tanta normalidade do desrespeito e da educação falha. Não existe falta de educação.
Todos nós somos educados de alguma forma na simplicidade da visão de Vigotisky.
Ele prega a educação pelas relações sociais e o aprendizado pela imitação do ao redor.
Aprendemos na relação com o outro e esses do grupo de estranhos sâo totalmente afeitos a mim.
São os artistas, os que pensam fora da caixa, ou melhor, fora do quadrado.
Houve um garoto que hoje já é casado, que trabalhou comigo no setor de marketing.
Um dia ele conversou especificamente comigo, depois de ouvir inúmeras pessoas do empreendimento repetirem a frase:
Cada um no seu quadrado!
Por favor Betu, fale com o povo para que eles não repitam mais essa frase.
Desde então, quando alguém profere a frase eu me coloco em discordância.
Não, o quadrado é pequeno e perfeito demais, quatro lados iguais e só cabe um dentro dele.
Há que ampliarmos, aproximarmos os quadrados individuais e trabalharmos no coletivo.
Artistas, nutellas, engomadinhos, sem teto, empreendedores, free lancers, introvertidos, extrovertidos, todos justapondo seus quadrados e adquirindo volume.
Sairmos do plano bidimensional e alcançarmos a terceira dimensão.
Avolumarmos as perspectivas, nas diferenças que ainda podem gerar debates com argumentações saudáveis.
Ainda estamos no olho do furacão, onde minorias precisam se pronunciar para serem ouvidas, mas podemos e devemos ir além, juntarmos os grupos na utopia do Viver para não termos a vergonha de sermos felizes.
O grande e inevitável problema é o tal um por cento.
Um por cento que nunca vai precisar se aglomerar quando o motorista chega para conferir as passagens.
O tal um por cento dono de todas as passagens.
O tal um por cento que adora o seu próprio quadrado que tem apenas uma perspectiva.
A dele.
Acho graça quando sabemos de tudo isso e ficamos sabendo que o contrário da depressão é a Expressão
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