Sofá
Ao fechar a porta do apartamento hoje bem cedo, percebi uma mancha no assento do sofá que pensei ser a projeção de luz vinda do janelão da sala.
Antes de fechar a porta, entrei e percebi que não era luz no assento.
Voltei para a porta segurando minha sacola amarela com pertences relativos às minhas aulas do dia.
Dentro da sacola uma caixa com materiais diversos e duas pastas com papéis em branco e trabalhos de alguns alunos.
Fechei de vez a porta do apê e fui até o carro sem contar os degraus da descida.
Normalmente subo com o elevador e desço pelas escadas, afinal estou apenas no segundo andar do prediozinho.
Andar eu ando bem devagarinho, a sessenta por hora no máximo, dentro do meu carrinho, espreitando à direita, o silêncio do prédio onde antigamente habitavam as pessoas com doenças mentais.
Ontem, quando voltei para casa vi no muro uma composição feita com mosaicos quadrados. Uma composição realizada num projeto pilotado pelo grande Artista Chico Chanes, feito há bastante tempo.
Porém ele segue firme estampado no muro marrom.
Interessante estabelecer uma relação da imagem artística produzida pelos pacientes, com o doutor que deu nome ao estabelecimento hospitalar.
Instituto Teixeira Lima.
Meu pai era quase sempre brincalhão e como já escrevi por aqui, era chamado de Mestre pelos amigos.
Remonto ao meu pai porque ele sempre brincava com uma atitude da dona Anna.
Minha mãe e esposa dele.
Todos os sábados, durante anos, minha mãe conversava pelo telefone com o doutor Teixeira Lima.
Eram longos papos, longas horas, todos os sábados.
Num desses dias, após as tais duas horas, mamãe disse ao Seu Jorge:
O Doutor me perguntou se eu tinha certeza que não tinha feito curso de Psicologia.
Claro que meu pai se adiantou e já proferiu a frase que ficou eternizada:
Zé Humberto, Ela enganou até o Teixeira Lima!
Salvo ledo engano, ele não estava totalmente certo.
Mamãe nunca enganava.
Ela acreditava, ela enchia de graça com a sua chegada, era convicta de que uma bela chegada lhe abria muitas portas.
Uma chegada amorosa, acariciando os cabelos e o rosto da pessoa que se aproximava.
Ainda quando caminhava pelas ruas do bairro carregando uma sacolinha de supermercado, sempre aparecia um Anjo que lhe dava carona e a entregava quase dentro de casa.
Sempre eram anjos loiros, ou morenos e sempre lindos.
Mergulho dentro da minha existência e penso nas palavras da neta Alice.
Ela diz que eu e meu irmão Paulinho, que mede um metro e oitenta, somos gêmeos.
Sinto no meu irmão caçula um menino de pureza inestimável, que herdou experiencialmente da minha pessoa, os abraços de encostar os rostos e beliscar delicadamente as bochechas e as orelhas, fazendo sons de energia.
Isso em Nós, independe da idade.
Para a Alice, imagino que seja apenas a falta de cabelos, ou a presença deles rareados, o objeto da dita semelhança.
Essa fala refere-se à minha percepção de feixe de luz no assento do sofá.
Ao ver mais de perto pensei ser até um pedaço do envelope da conta de luz, mas nem isso era.
O tecido que cobre o estofado está roto, podre, esgarçado.
Ele é marrom e o pequeno rasgo deixa à mostra o recheio branco.
Era apenas um ameaço de buraco.
Nossos esgarcados nos colocam à prova.
Apresentam a todos os nossos recheios e não há máscara que consiga esconder.
Nem é preciso.
No sofá o detalhe não é luz, não é pedaço de papel.
É apenas um pano surrado que mostra o que o sustenta.
Minha ideia é que a minha felicidade é infinitamente maior do que qualquer tristezinha, ou fobia.
Sou um sofá que requer sempre gente assentada.
Um sofá ornamentado com almofadas.
Não desejo trocar o tecido do meu sofá.
Deixe que os tecidos das calças e dos vestidos amparem o esgarçado, fechando qualquer possibilidade de rasgo.
Somos sensíveis a qualquer conversa de mais de duas horas com o Doutor e ele tem certeza que somos artistas do inconsciente.
Nise da Silveira acataria com carinho nossas almofadas estampadas e o Arthur Bispo do Rosário faria um maravilhoso manto com os fios marrons do forro do nosso Sofá.
Assim é e assim será
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