Ressureição

Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
Que Maravilhoso esse Lavoisier.
Pego uma folha de papel A3 e depois de olhar atentamente para uma lasca de tronco, eu a desenho Tim Tim por Tim.
Ledo engano pensar que a lasca ficou idêntica, igualzinha aquela que acabei de ver em 3D, bem na minha frente.
A lasca pensou perder-se em meus traços, porém foi apenas transformada.
Ficou igualzinha, mas não idêntica.
A identidade dela é outra, não é desenho feito a mão.
É identidade de árvore, um ser vivo descascando.
Talvez envelhecendo.
O meu desenho é novo, jovem por ter sido feito a pouco.
Outro dia ouvi alguém falando bonito sobre Deus, o chamando de Natureza.
É natural que a gente pense e reflita sobre isso.
Quem já viu aquelas plumagens de pássaros ditos exóticos tem quase a confirmação da Natureza de Deus.
Confiar é Fiar junto, confiar.
Pegar a providência divina com a mão também deve contemplar a coragem, a vontade de seguir caminhando, ir em frente, criar, não se perder, transformar.
As variações desses verbos é de alguma forma surpreendente também.
Formar, deformar, reformar, transformar, informar.
Várias formas de agir sobre as coisas, sobre as pessoas e sobre nós mesmos.
Volto à minha folha de papel A3 e a rasgo com vigor, dividindo-a em duas partes.
Uma delas coloquei no liquidificador e pus junto, água e um pouco de cola branca.
Bati bem batido e despejei o conteúdo num balde paralelepípidico, onde já descansavam sementes frutíferas.
Deixei ali descansando.
A outra metade colei num pedaço de madeira pintado de verde que até outro dia era uma lousa de criança.
Ficou presa mais para baixo do retângulo verde, mas sobrando verde nos quatro lados do papel.
Pus-me a desenhar e pintar a partir do pedaço de lasca que sobrou depois do rasgo.
Disse lasca, porém era metade do desenho da lasca.
Transformei a metade numa árvore inteira, acrescida de areia na base, azul celeste no fundo e sobre ele duas nuvens brancas acinzentadas, afinal a chuva se avizinhava na minha recriação.
Ficou pronta a nova obra transformada.
Ficou ali, encostada na mureta de casa, exposta para que alguém levasse para outro canto, se assim lhe aprouvesse.
Levaram.
Do balde com migalhas do antigo papel A3, renasceu um papel feito com papel, água, cola branca e sementes.
Ontem mesmo vi uma criança picotando esse papel e borrifando água para que as sementes germinassem.
A minha sensação é de revigor.
Saber que não sei muita coisa sobre muitas coisas.
Não sei, por exemplo, sobre o paradeiro das cadeiras que espalhei pela cidade.
Faz uns vinte anos.
Fez parte da minha ação no Projeto Terra Rasgada.
Projeto que pedia para que os artistas de Sorocaba e região falassem sobre a nossa Cidade, usando suas Expressões Teatrais, Musicais, Visuais e Dançantes.
Espalhei por doze bairros, doze cadeiras de madeira pintadas nas três cores da Cidade, na intenção de que elas fossem levadas para doze casas diferentes.
Onde estão essas doze cadeiras?
A minha ideia é que estejam sendo usadas até hoje por vários cidadãos residentes.
Arte utilitária, criada e recriada à exaustão, ou com toda paciência do Universo, pelo que cria, por tantos outros que recriam e transformam.
Ando paciente, ciente que sei bem pouco, mas o pouco que sei, devo saber Bem.
Até o Bem que me coloca diante dos mais incríveis medos, mesmo sabendo que a transformação é inevitável na formação desse ser humano inquieto, que ainda não se sabe bem, mas segue alimentando esperanças

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