Procuras
Estive procurando poesia.
Acabo de escrever e acabo achando o verbo no gerúndio, Procurando.
Pró Curando.
Antes de tudo, curando.
Acho que o Chico que é César está muito certo desde dois mil e oito, quando escreveu: Perigo é se encontrar perdido, encontrar-se distraído e achar sem querer.
Repare que fiz um apanhado da ideia genial do gênio.
Ninguém é todo bom, ou todo mal, mas a possibilidade de escorregarmos por erros, equívocos, ou desvios de conduta é grande.
Tão grande quanto afirmar-se no Bom, no que engrandece e enaltece.
Sigo a procurar poesia.
Alguns poetas dizem que a gente a encontra e outros dizem que é ela que nos encontra.
Ando a procurar e acho que de alguma forma promovo encontros palavrísticos, líricos, poéticos.
Não me basta encontrar.
Também não quero apenas espalhar.
Gostaria que germinasse.
Porém isso não está no meu controle e veja que acho que não existe alguém que goste mais do controle do que eu.
Bobinho.
Achar que é possível ter algum controle sobre tantas variáveis dessa vida cíclica.
Aqui da poltrona ouço a conversa do meu vizinho de viagem.
Vizinhos.
Ele conversa com a moça que ele acabou de encontrar.
Ele diz:
Eu vou visitar meu filho.
Ele está na fundação Casa.
Quiçá todos as casas tivessem Fundação sólida e que as visitas fossem encontrar corações afinados.
A poesia pode ser grosseira, forte, tão forte quanto o calorão que faz aqui dentro do ônibus.
O meu vizinho explica para a moça que o motorista, por economia, não liga o motor que ligaria o ar condicionado.
No que ela replica: Economia de quê? A gente paga uma fortuna para essa economia?
Perdemos o controle por todo e qualquer direito.
Erro totalmente ficando com preguiça de enfrentar esse estado de desdireito.
O moço reafirma que ele é pai e mãe ao mesmo tempo.
A moça tem um filho pequeno.
Ele criou uma filha por quatorze anos sem saber que era filha dele.
Ele tem três filhos.
Que coisa mais feia ficar ouvindo a conversa dos outros!
O motorista liga o motor e o ar condicionado dispara.
Alivia a dor com o frio, tenta aliviar os momentos sofridos com oposições, dicotomias.
Não tenho controle sobre essa escuta, afinal eles falam mais alto do que eu.
E outra, estou escrevendo sem parar, afeito que sou à minha ansiedade compulsiva.
Sigo procurando poesia.
Agora o ônibus adquire movimento.
Sobre a cabeça dos vizinhos passam postes, árvores, margens do Tietê, caminhões, outros ônibus, placas e mais detalhes que sou eu quem reparo.
Encontro o verbete Reparo e esse tem pelo menos dois sentidos.
Usei no sentido de observar e agora estou tentando reparar, consertar, transformar o que antes apenas fitei.
Postes com fios roubados, árvores cortadas nos galhos, margens postas em desassoreamento, caminhões transportadores de líquidos, outros ônibus com outros poetas e placas que indicam Paraíso com seta para cima e Liberdade com seta para baixo.
O maravilhoso Ignácio de Loyola Brandão numa entrevista nos confidenciou que adora andar a pé, ou com ônibus, munido de um bloquinho de notas, também a fim de encontrar a dita poesia.
Numa dessas andanças sentou-se atrás de duas senhoras no transporte público, navegando pela Paulista.
Uma perguntou à outra:
Você que é tão inteligente, sabe me dizer qual é a diferença entre POBLEMA e POBREMA?
Claro que sim, respondeu.
Pobrema é o que a gente tem com os vizinho e Poblema é o que a gente resolve na Matemática
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