Vai vendo
Ao usar minha caneta hidrográfica preta de ponta grossa eu tive uma ideia inusitada.
Claro que a ideia precisou de um empurrão da observação do pelinho que saltava da ponta da caneta.Passei os dois dedos na busca de alisar o cilindro pontudo.
A caneta havia acabado de sair da minha caixa de materiais usada pelos alunos durante o ano anterior a esse.
A caixa para 2024 já está pronta em Sorocaba.
Saiu da caixa e foi direto pra minha mesa de trabalho.
Ao escorregar a tal ponta sobre o papel já modificado, fui me lembrando que eu havia colocado, no mês de outubro passado, Nanquim com água no tamborzinho interno.
A caneta havia secado, a tinta havia acabado e eu já sabia que se eu só colocasse o Nanquim não funcionaria.
Agora, com um pouco d'água, ela estava perfeita, com exceção do pelinho na ponta que saltava no atrito com o papel.
Foi nesse momento que percebi que o atrito da caneta com o papel deformava mais e mais a sua ponta.
Entendi que o intenso uso da caneta durante o ano a deixava cada vez mais inutilizável, por mais Nanquim e água que eu colocasse.
O menino que precisou dela tantas vezes nas aulas, também precisou de cuidados no café da manhã, em setembro, quando deslocou o pé ao correr atravessando a rua.
Só correu porque viu do outro lado a menina que lhe trazia todos os dias um doce da padaria.
A menina tinha uma mochila cheia de botões sortidos, de vários temas, mas os seus preferidos eram os de banda de metal.
Um dos botões especiais tinha estampado o rosto do menino da escola que tocava piano no conservatório.
Esse era virtuose, aprendeu piano desde os cinco anos e tem em casa um piano-caixa.
Sobre o piano, um porta-retrato.
A imagem tem no fundo uma das praias de Ubatuba e no primeiro plano o seu pai quando criança.
Era um menino engraçado, com um chapéu cata-ovo azul, bordado na frente com as iniciais J. C..
O chapéu não era dele.
Era do seu avô João Carlos, um sujeito autoritário que em casa começou a perguntar onde estava seu chapelão.
Perguntava de forma grosseira para a moça que trabalhava na sua casa.
Ela trabalhava direto e à noite fazia curso de tecnologia da informação num escola do bairro.
No último dia que ligou o computador na escola a imagem do descanso de tela era a foto de um moço, namorado da última usuária.
Deu pra perceber que ele era médico, ou enfermeiro, pela proteção no cabelo e o bordado no jaleco.
Atrás dele havia um paciente na maca, com um semblante tranquilo.
Esse senhor era pai da moça que havia deixado a tela.
Ela além de fazer o curso, adorava desenhar e pintar com aquarela.
Adorava retratos e descobriu que depois de várias aguadas no papel, ela podia secar e aplicar uma caneta preta para realçar os detalhes.
A sua caneta preta contornou a face do seu filho.
Um menino vigoroso que atritava o solado do tênis com o saibro da quadra no clube.
Vista de cima a quadra era um quadro.
Linhas grossas mais claras do que o saibro escovado pelos rodinhos.
Vista do alto parecia um quadro do Pollock.
Porém, assim como quando a gente olha o céu e nas nuvens vê algumas figuras.
Ora um gato, ora um coelho, dessa vez o que se viu foi o retrato da menina dos botões na mochila.
Ela apontava o dedo para o menino atravessador de ruas.
Indicava a ele o caminho tortuoso que deveria seguir.
Tortuoso porque na vida não existe pra ninguém um caminho apenas tranquilo e certeiro.
O menino que havia machucado o pé em setembro passado, hoje está colando figuras recortadas de um calendário antigo que achou na caixa de Papelão dentro do quartinho da bagunça.
Ele quer me trazer a colagem no primeiro dia de aula desse ano.
Pediu-me para que eu leve a caneta preta de ponta grossa e eu expliquei a ele que ela está bem gasta e com um pelinho que dificulta o traçado.
Ele ainda não me respondeu no Chat.
Chegando em Sorocaba vou colocar a caneta na Caixa nova de materiais.
Por favor vai vendo o garoto, a menina dos botões, o pianista, o pai dele, o pai do pai, a moça ajudante, a aquarelista teórica da informação, o namorado, o paciente, o filho tenista principiante e nós todos.
Os que observam e são observados.
Os que admiram e os admiráveis.
E Nós, que nos atritamos com os acontecimentos e aprendemos a contornar para realçar as possibilidades e diluir os problemas.
Um pelinho está teimando a se deslocar aqui da minha ponta, mas o meu papel é enfrentá-lo
Comentários
Postar um comentário