Pontas e tênis
Caminhei olhando as pontas dos meus tênis.
Esquerda na frente, direita atrás, pisando nos diversos tipos de calçada estragadas pelo conserto do encanamento da rua.Enquanto pisava eu observava os assuntos do Manoel de Barros.
As insignificâncias as quais ele enchia de significados valiosos.
Já eu, apenas observo pedaços de embalagens de salgadinhos, o papel descolado da caixa de fósforos Pinheiro, aquelas chapinhas de alumínio de latinhas, barbantes que embrulharam presentes e outras coisinhas a mim deveras significantes.
Significativas a mim, ao Manoel, ao Drummond e ao Quintana, entre tantos outros.
Nesse parágrafo deu vontade de escrever que jamais me compararia a esses geniais, mas pouparei a escrita.
Nunca acreditei nas expressões: A luta do século, Os melhores da MPB, ou quaisquer outros Melhores.
O que eu acredito é que nós fazemos o que deve ser feito, ou então não fazemos, por preguiça ou desinteresse.
Continuo olhando as pontas dos meus tênis e as coisinhas pisadas pela minha intuição.
Houve um tempo que eu, com os mesmos tênis, escolhia o pé direito para subir na calçada do outro lado.
Eu tinha e tenho a consciência exata do ato e quando sinto vontade de escolher eu escolho por simples boniteza do gesto, embora o termo para isso seja Transtorno Obsessivo Compulsivo.
Eu sei que em casos extremos pessoas podem até falar com paredes, ou até pombas no estacionamento.
Depois dessa citação você deve estar se perguntando:
De onde veio isso?
No passado, eu que só bebo água e suco, tive a experiência de sair do meu carro às seis da manhã no estacionamento de uma real padaria e dar de cara com três rapazes que, bêbados, conversavam com pombas que se alimentavam com os restos de coxinhas.
Um falava: Ei você, voa direito minha filha, o outro dizia: Sai e para de bater essas asas, sua tonta!
Depois de muito tempo eu tenho a certeza que os grandes artistas são compulsivos.
Acordam e vão dormir desenvolvendo seus trabalhos, dia e noite, noite e dia.
Num exemplo relativamente recente, um diretor de cinema que filmava o Pollock pintando em cima de uma mesa, afirmou em voz alta: Pare, eu já terminei.
O Artista respondeu imediatamente: Não paro não.
Eu não terminei!
Vejo embaixo dos meus pés a fitinha do Bomfim desgastada e rompida.
Qual é o seu desejo?
Meu desejo é chegar em casa, mas pra isso ainda preciso decidir se uso a caneta marrom ou a preta no desenho sobre o couro.
Decisões devem remexer as gavetas das insignificâncias.
É certo que quem coloca significado nos mistérios somos nós, crédulos e incrédulos, críveis, ou inacreditáveis.
Somos seres cósmicos que manejamos com a beleza.
O verbete Cosmos significa beleza e daí deriva-se os Cosméticos.
Mundo cósmico é esse local belo e puro.
Na dança das coisas significantes mundo é pureza e algo impuro é imundo.
Tudo isso é sinal do gosto pelo aprendizado, sinal de sermos curiosos, de trabalharmos com as peças que nos são oferecidas.
Já estou na calçada em frente ao prédio e piso leve sobre um pedaço de papelão que, mais tarde, vai se tornar uma caixinha sextavada pela justaposição de triângulos escalenos.
Coloco a chave de ponta cabeça no buraco da fechadura da primeira porta e onde piso já faz parte da próxima história
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