Natalidade

Muito já se falou e escreveu sobre o dia 25 de dezembro estar centrado no nascimento de Jesus e não na compra de presentes e na festa com excesso de comida. Foi comprovado que o nascimento do menino Deus não aconteceu nesse dia e também não em dezembro, porém como escrevi antes, não é sobre isso que desejo mais uma vez escrever.

Escrevo sobre ter lavado a louça bem cedo e estar observando o violão, aquele que desenhei sobre o tampo

Um pouco mais à direita está a poltrona branca que também está desenhada e já desbotada pela ação do sol.

Usei muitas canetas de diversas procedências, aquela Posca, marcador permanente, caneta japonesa comprada na Daiso e só não usei caneta hidrográfica pois tinha certeza que essa não resistiria à primeira limpeza.
Praticamente só sobraram os traços feitos com a Posca.
A resistência é uma qualidade que sempre me impressiona, assim como a insistência e a resiliência que estão além de qualquer caneta, desenho, ou escrita.
Essas qualidades que estão impregnadas em algumas pessoas especiais.
Ganhei chinelos bem confortáveis dos meus filhos e os vejo agora nos meus pés que está debruçado sobre o puff coberto com croché de linhas grossas feito com linha de um verde escuro.
Cobertura feita com muito esmero e manualidade.
Do lado esquerdo dessa beleza está a estante baixa repleta de livros e objetos de arte feitos por vários amigos e amigas.
Na parede logo aqui em frente, os objetos artísticos também aparecem em profusão.
Agora os meus olhos se voltam para as persianas de bambu que estão abertas sobre as janelas da sala.
Lá fora mora o dia vinte e quatro.
Os barulhos da construção do que será um edifício comercial estão a todo vapor, os cachorros da vizinha, os operários falando entre si, a chaminé do restaurante do Claude, as pessoas buzinando dentro dos seus automóveis e muitas outras dentro dos seus escritórios e das suas empresas grandes e pequenas.
Repare que as pessoas vão muito além dos objetos.
Elas estão além, se movem no sentido que os criam e dão-lhes o movimento necessário.
Quando necessário.
Nessas idas e vindas de pessoas parece que esse tal de tempo vai nos atravessando incontrolável.
Parece não interessar mais se é segunda ou sexta-feira, se é janeiro ou novembro, se estamos ao vivo, ou na Web.
Acho tudo isso interessante, me interesso e por isso escrevo.
Também desenho e pinto, canto e componho pequenas canções e sei que isso não é coisa só minha.
Hoje muita gente que exercita o fazer artístico mexe com muitas linguagens e meios.
Volto meu olhar para as pessoas na padaria.
Seus fazeres, olhares, interesses e desinteresses.
Quando saio carregando meu saquinho com três pães franceses reparo que de franceses eles não têm nada.
Não são baguetes, brioches, ou croissants.
São abrasileirados, mestiços, misturados e com aquele sabor fino da diversidade.
Abro a porta do prédio com a chave virada de ponta cabeça.
Nada mais brasileiro do que isso, nos virarmos de ponta cabeça.
Na ponta da cabeça existem dúvidas que não podem ser travestidas de certezas.
Nem o dia vinte e cinco parece ser o dia vinte e cinco do Natal, mas a gente insiste.
Resiste e é resiliente perante o fato de querermos realizar o encurtamento das diferenças sociais.
Natalidade dos afetos é insistência em nós, seres humanos menos máquinas.
A gente pode até acreditar ou não em menino Deus, meninos deuses, ou forças energéticas da natureza.
Como disse Rita Lee:
Xô Papai Noel, esse dia é do Papai do Céu.
Eu acredito em Jesus por gosto mesmo.
Quando vejo escrito que ele chamou dois dos seus amigos pra subir uma montanha e vê-lo transfigurar-se em Luz, nem é isso que me faz gostar mais.
Nem gosto quando os dois amigos acharam que estava tudo muito gostoso e pediram para construírem três tendas para ficarem por ali, no bem bom.
Eu adoro quando Jesus, o Deus feito Homem, diz para os dois:
Parem com isso.
É agora que a gente vai descer essa montanha e só vamos levar porradas.
Isso pra mim é Natalidade.
Nasce em nós uma esperança de ações contundentes.
Permaneço vendo meu violão desenhado e a poltrona.
Dedilho em  Sol Maior

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