Estou lendo

Acabo de ver bem na minha frente, na parte de trás do banco desse ônibus que agora me leva de volta a Sorocaba, um suporte que não consigo pensar para que serve.

Ele é feito de plástico e tem a forma de um gancho.

Encontrei outro dia estirado no chão calçado um parecido, porém tinha a estampa de um gato branco com gravatinha vermelha.
Esse não.
É feito com plástico cinza.
Um gancho único na lateral esquerda das costas do encosto.
Seria para pendurar a minha mochila pela alça?
Tentei e consegui que a mochila ficasse enganchada, porém ela fica batendo na minha perna boa.
A outra perna não tem nenhum problema, mas a esquerda é a boa para bater um pênalti forte no meio do gol sem chance de defesa para o goleiro.
Sim, quero dar chance ao gancho  mas acho que em breve pedirei ajuda ao oráculo dos novos tempos.
Darei um google.
Ao olhar mas atentamente na direção do plástico cinza e pensei em tecnologia digital.
Vejo que o moço sentado mais na frente pilota um notebook e digita apressado um documento.
Não me interessou saber o conteúdo do seu trabalho, ou da sua diversão, mas achei interessante eu ter escrito sobre o Google tecnológico e logo depois ter visto a cena.
Automaticamente a minha memória me trouxe o dia no qual eu comentei com alguns alunos no pátio do Colégio sobre a minha pele leitosa, quase transparente, carente de sol e no instante seguinte, quando estava na porta de entrada da sala de aula apareceu na tela do meu celular propagandas de Bronzeadores.
Sim, eles dizem que os nossos celulares têm ouvidos.
Eles dizem.
Afinal quem diz?
Penso que a fala que me conecta com o tal gancho de plástico cinza e suas possíveis utilidades é a mesma que me projeta para o entendimento da máquina e das minhas necessidades.
A minha necessidade se estende além da máquina, além da fotografia realista, além da cópia fútil da garrafa Plástica sobre a toalhinha de crochê.
A minha necessidade é desprender-me dos meus parafusos com fenda Philips, exatamente iguais a esse que prende o gancho de plástico à poltrona.
É bastante difícil ter a chave dos mistérios.
Coloco a mochila de novo no meu colo tirando-a do gancho e me ponho a meditar.
Uma meditação além do controle da respiração.
Muito além de qualquer controle.
E medito sobre a estratégia vívida do aluno antigo mas sempre presente, que numa prova de Geografia se deparou com a seguinte questão:
Como se divide o relevo brasileiro?
De bate pronto ele respondeu:
Re Le Vo
Trissílaba paroxítona!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Todos

Rima

Vídeo Game