Sandálias

 Enquanto eu subia a escada da escola pública, um aluno mestre um dia me disse:

Onde você vai com essas sandálias de Jerusalém?
As minhas sandálias poderiam ser aquelas rasteirinhas feitas de um couro necessitado de ser molhado e exposto ao sol, mas não.
Foi comprada numa loja que prometia conforto especial para os pés, coisa fina.
Hoje está guardada num pequeno armário que suporta a esperta televisão de tela plana.
Com todo esse calor que está acontecendo na quase primavera, resolvi tirá-las do esquecimento, vesti-las e me dirigir ao estacionamento do prédio.
Pús-me dentro do carro, o câmbio no ponto morto e lá fui eu com o pé na embreagem.
Adoro essa palavra, embreagem.
Embrenhei-me na tarefa de acertar o comportamento dos pés, mas senti que não era a mesma coisa.
Com os meu costumeiros tênis colados aos pés o controle tem sido muito maior.
Todos os dias.
Enfim, as sandálias escorregavam dos pés e a sensação de desconforto ao dirigir era grande.
A minha necessidade de dirigir tudo me pôs a pensar que não tenho o controle de quase nada, embora eu pense ter nascido para essa tarefa, o controle.
Tudo eu preciso fazer, nada a delegar, tudo achar que se eu não fizer não sairá bem feito.
Apesar de ler muito sobre planejamento eu acabo tendo a certeza da beleza do improviso.
Certeza da intuição falar mais alto.
Você que agora me lê está pensando que tudo isso é paradoxal, controle e improviso.
Não deixo de lhe dar razão, mas a minha intuição me diz que estou perdendo o controle.
Ganhando mais passos com as sandálias que escorregam roçando a pele dos pés e da razão.
Chego na festa da Alice e os pais da maravilha me recebem com um beijo.
Ali, nada de sandálias ou tênis, nada de molho pronto, apenas o cozimento da massa que a neta amassou para que a gente pudesse se deliciar.
Na volta para casa eu já estava acostumado com as pegadas em falso nos pedais.
Pensando em a partir de amanhã começar a dar novos passos.
Seguir em frente com novos conceitos, teses, intuições e improvisos.
Pensando bem, a verdade é que apesar das viagens filosóficas e as práticas textuais me colocarem bem próximo a qualquer lugar que eu deseje estar, tenho que confessar que eu nunca estive em Jerusalém

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