Números flexíveis
Número um.
Eu não nasci para resolver os problemas do mundo.
Esse mundo maluco.
Claro que eu resolvi me isolar das televisões e das notícias do Google.
Opção que me faz observar melhor os meus pequenos problemas e os dos meus próximos.
Desta forma gosto de estar professorando Arte no Colégio e andando pelas ruas e avenidas, até dentro de casa.
Problemas que aparecem das mais variadas formas e a primeira forma de confronto meu com eles é me afastar de coisas mesquinhas e insignificantes.
Pessoas são muito importantes neste processo.
De preferência pessoas sensiveis e interessadas em coisas ainda mais sensíveis e processuais.
Não precisamos de tudo com resultado imediato.
Acabei de precisar comprar um cabo USB/C branco e de cara encontrei com o dono e vendedor, desde que a lojinha era pequena.
Ele me recebeu calorosamente, mas estava atendendo e visivelmente contrariado.
Ele disse para a moça:
Existe uma diferença entre estar sério e focado do que estar emburrado e bravo.
Comprei o cabo com outra vendedora que veio ao meu socorro e na despedida, fiz questão de colocar a mão na direção do coração do moço e desejar-lhe tudo de mais positivo.
Ele sorriu agradecido e me chamou novamente de mestre.
Somos todos mestres quando nos colocamos a serviço.
A minha paciência sempre é colocada à prova quando o problema do outro é a folga e a preguiça.
Por isso só peço aos outros aquilo que eu sou capaz de fazer.
Acordo elétrico como sempre e já me ponho ao serviço, evitando deixar para depois o que eu posso fazer já.
Não ficarei nem mais pobre, nem mais rico com os afazeres que prestigiam o bem estar de muitos.
Digo isso também quando posso gastar um dinheirinho pra fazer algo inesperado para o outro deixar sua estampa cansada trocando por outra um pouco mais suavizada.
A minha satisfação de estampar sorrisos em instantes que seria mais apropriado a rabugisse.
E quem escreve isso sou eu, que ainda tenho muito o que fazer para desligar o botão da minha italianice.
Momentos de perder as estribeiras.
Estou a aprender bastante sobre os momentos onde esta atitude é extremamente desnecessária.
Pessoas de paz devem estar sempre atentas ao ensinamento do Stan Lee:
Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.
Ou então o que nos ensinou o Mestre Jesus: a quem muitos telentos foram dados, muito será cobrado.
Uma frase explica e complementa a outra.
Não é uma cobrança externa, ou grosseira, mas uma cobrança interna que vem escrita no próprio DNA.
E para mim é tranquilo, afinal só tenho recebido coisas muito positivas e ao escrever coisas, quero dizer gestos.
Gestos às vezes sutís, às vezes totalmente escancarados, tais os abraços do segurança Vanderlei, quando nos encontramos antes das pequenas compras no mercado pequeno.
Na saida da academia uma filha estacionou de bico na calçada, para que a mãe, uma senhorinha com bengala, saísse do carro.
A filha ficou estática ao volante.
A mãe fazendo um esforço enorme para abrir a porta do automóvel.
Eu parei, abri a porta, a bolsinha preta à tira colo despencou do seu ombro e eu segurei.
Dei a minha mão a ela e ela conseguiu sair, dando até uma pequena topada na calçada mal feita.
Ela desacreditou na situação e me agradeceu sorrindo.
A filha estática agradeceu:
Obrigada.
Fechei a porta e a filha saiu em disparada com o carro, já que estava estacionada de forma proibida sobre a calçada.
Talvez a mãe entraria numa casa de Bingo que existe ali na frente, mas isso não pude e não quis apurar.
Um gesto muuuuito simples, mas a senhorinha achou até estranho quando afirmou:
Quanta gentileza.
Não nasci para resolver os problemas do mundo e nem peço que resolvam os meus, afinal sou abençoado pelo pequenos problemas que tenho.
Quem não os têm?
O meu desfrute é eterno e cotidiano, já que na imensa maioria dos casos só faço o que quero e o que me traz estampas de sorrisos intensos.
Já afirmaram que a felicidade é uma coleção de instantes alegres.
Eu compactuo com essa ideia e venho colecionando instantes.
A minha caixinha de música é a minha cabeça.
O meu baú do tesouro é o meu coração aberto à poesia
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