Cinto de segurança
Eu sinto que acordar bem cedo com a frase da Adélia Prado é uma sensação eterna.
A frase:
O que a memória ama é eterno.
Sensação de eternidade daqui pra frente.
Prefiro pensar que não é apenas algo ancestral, mas fundamentalmente algo que acontece a longo prazo, daqui para o futuro.
Claro que a memória nos remete a algo acontecido no passado, mas este efeito produzido pela frase, signiifica para mim que eu quero continuar fazendo a eternidade.
Acontecê-la.
Sempre remontando à questão da felicidade como uma coleção de momentos felizes, somos nós os produtores destes momentos.
Posso proporcionar sorrisos intensos como a Adélia produziu em mim.
Um conjunto de palavras que, uma grudada à outra, produz uma energia vital incalculável.
Sou grato por ter sido dotado dessa característica.
Ser capaz de extrair dessas histórias uma fantástica gama de coisas boníssimas.
Ontem conheci a nova professora de Desenho dos alunos do primeiro e do segundo ano.
Carol.
Ao me apresentar, a minha turma já estava na sala e ao meu lado estava sentada a Julinha.
Ela foi logo dizendo que eu sou um contador de histórias.
Além disso, no início da minha aula a Julinha me solta essa:
Você ficou bem mais moço sem bigode.
Rio porque quando voltei da viagem, olhei para o espelho e disse a mim mesmo:
Caramba Betu, você já é velho e este bigode branco está te deixando mais velho ainda.
Sensações de pessoas das mais variadas idades cronológicas e das mais variadas características.
Para a outra quinta fui convidado para participar de um bate papo sobre o Projeto Terra Rasgada, realizado nos anos 90, pelo Sesc, Secretaria de Cultura do Estado de Sâo Paulo e pelos Artistas da cidade e região.
Um projeto realizado de forma tão maravilhosa e intensa que perdurou por cinco anos.
Unia os Artistas e a Comunidade, interagindo com a Urbe, incluindo um trabalho com os alunos das escolas da cidade.
A proposta era que Os Artistas interagissem com Sorocaba, Terra Rasgada na língua indígena e produzissem Obras que se relacionassem com essa interação.
No bate papo levarei a cadeira de madeira pintada com pinceladas pretas e dois tons de azul.
A única que ficou em casa.
As outras onze cadeiras eram pintadas com amarelo, preto e vermelho, as cores da cidade.
Distribuí as onze cadeiras pelas ruas de diferentes bairros, sendo que a ideia era que os moradores fossem impactados com a estranha presença de uma cadeira na calçada e acabassem levando a cadeira para casa.
As cadeiras duraram bem pouco em seus lugares de origem.
A Obra cumpriu a sua função.
Passado esse tempo todo, com certeza existem estas cadeiras sendo usadas em casas de Sorocaba.
A cadeira que está comigo representa a relação do Rio Sorocaba com sua marginal.
Lembro que uma semana antes do evento uma mãe com problemas atirou-se no rio, saltando da ponte da rua XV.
Foi socorrida.
A memória pode amar também coisas não tão belas, mas em mim, se soltam da cabeça principalmente quando eu estou no meu carro percorrendo a marginal Dom Aguirre.
Claro que não apenas ali, mas ali acontece uma fartura de memórias.
Se apareceu na minha cabeça eu tenho que fazer na mesma hora algo para interagir com ela.
A memória.
Sobre a eternidade voei por dezenove horas, indo e voltando de Lisboa
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