Ancião atômico
Andando eu vejo muitas pessoas e fico pensando em suas características individuais, a partir das suas vestes e dos seus andares.
Já escrevi aqui que fico feliz em ver os senhores da minha idade vestindo jeans, camiseta e tênis.
Acho interessante porque me passa a sensação de despojamento.
Não tenho nada com isso, mas me deixa com vergonha alheia, ver que alguns usam aquelas bermudas compridas cheias de bolsos, meias curtinhas desaparecidas nos tênis de corrida.
É um desgosto meu, a pessoa não precisa concordar e se achar que fica bem assim, que continue.
Não gostei de me ver no espelho com aquele bigode branco.
Observei que além de já estar mais velho, eu conseguia ficar mais velho ainda.
Rio porque foi apenas uma impressão minha, mas ao chegar na primeira aula com a criançada, a querida Julinha me fez essa observação:
Betu, você ficou mais moço sem o bigode.
Fofa.
Rio porque realmente não tenho nada a ver com o gosto pessoal do senhor que veste bermuda comprida com muitos bolsos.
Porém, este não é o essencial nesta minha ideia de escrever sobre as pessoas que caminham nas ruas do bairro.
Jovens trabalhadores dos prédios de empresas espalhadas por aqui, vêm e vão, me dando a versão de cada grupo.
As enfermeiras, os corretores, as e os advogados, os e as professoras e todos os outros tipos de pessoas que saem de casa e se voluntariam em andar pela cidade.
Sim, é um ato de graça e coragem andar por aí.
Trabalhar, sair para almoçar, voltar para o trabalho e depois voltar para casa.
O transporte público me oferece a oportunidade de ver todos aqueles que precisam de ônibus e estão esperando no ponto.
Nenhum deles parece dormir no ponto.
Inclusive quando saio cedo para comprar pão, ao lado de um ponto amigo na Tabapuã, uma moça está montando a sua barraca com garrafas térmicas com chá, café e leite e apresenta bolos e pães para aqueles que saíram de casa muito cedo e vieram trabalhar por aqui.
Já descem do busão e têm coisas para comer e beber.
É uma odisseia não apenas das cidades grandes.
Acabo de me lembrar das rodoviárias e seu leque gigante de pessoas de todos os tipos e a moça que diz que pertence a uma ONG que trata de mulheres e está vendendo brigadeiros.
Uma vez ajudei, mesmo sabendo que os brigadeiros da dona Anna eram e são insuperáveis.
Outro dia um moço, morador de rua, me agradeceu por eu ter dado um pouco de atenção a ele.
Ele me pediu uma caixa de chocolate para que ele vendesse na calçada.
Entrei na loja, mas a caixa de chocolate estava pela hora da exaustão.
Não consegui comprar, mas ele ficou feliz por eu ter falado com ele.
Noutro dia o moço que trabalha num Mercado Minuto me advertiu porque eu comprei um pão doce para outro morador de rua, que visivelmente tinha problemas mentais.
A advertência foi para que eu não fizesse mais isso, porque o senhor fica irritado com os funcionários que o proibem de entrar na loja e emite xingamentos a todos.
Realmente é uma situação complexa, porém penso que a pessoa está com fome.
Real, ou mentira, eu não consigo discernir em instantes.
Da mesma forma que é a minha imaginação que funciona quando monto histórias para mim mesmo a partir das pessoas que vejo, é o meu pensamento mágico que age na hora que alguém me pede comida.
Não sou mágico e nem ilusionista.
Construir condições para que o mundo possa ser muito diferente e propor muito menos desigualdades me parece fora do alcance.
Gosto dos médicos sem fronteiras, afinal estes eu considero médicos de primeira grandeza, mas também não os conheço.
As imagens me apareceram pela televisão.
Gostei do que vi porque alguém criou uma embalagem de uso individual que nutre crianças e eu posso contribuir com dez unidades diárias.
Fico inconformado com os poderosos covardes que saquearam e continuam saqueando vários países da África, armando e desarmando habitantes que provocam crises e deixam seus entes privados das necessidades básicas.
Estou sendo bem superficial, afinal as imagens são chocantes e são causadas pela ganância daqueles que amam o dinheiro e o poder, se afirmando com invasões a vários territórios, roubando a sua cultura e a sua sanidade.
Tudo em função de ter petróleo, gás e riquezas minerais que não os pertence.
Eu preciso de simplicidade.
Eu necessito trabalhar com aquilo que eu amo e vim preparado para fazer.
Vim preparado porque sei desde criança e mais preparado ainda para ir aprendendo com os andares e as vestes das pessoas pelas quais sou impactado na rua.
Não é o meu desenho que me habilita a dar alegria a alguém, mas o conceito da Arte que aglutina muitos ensinamentos, inclusive aqueles que aparentemente nada têm a ver com ela.
Eu tenho uma caixa de ferramentas e quando o fio do ferro de passar roupa se rompe, me basta uma tesoura e uma chave de fenda para colocá-lo de novo para funcionar.
Função interessante para um ancião sem bigodes e que anda pelas ruas de São Paulo com bermuda curta e meias de cano curto estampadas
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