Pedalando serenado

Esqueci de trazer meus fones.
Até os meus fones têm fita adesiva para segurar as partes.
E funciona como novo.
Eu gosto, ou sou levado a gostar de alguns artefatos com alguma avaria.
Meu carro tem fita adesiva preta no parachoque traseiro.
Eu gosto de uma certa personalidade nestes quesitos.
Meu antigo Fiesta 98 era todo avariado e por isso, amado pela maioria dos meus alunos.
Eu vou deixando assim, mas hoje sem exageros.
Esta personalidade deixada nas coisas não tem a ver com a minha necessidade de simplicidade, mas sim com estética mesmo.
Adoro assemblagens, qual sejam, mistura de materiais descartáveis para a produção de uma Obra.
As caixas de materiais anuais que eu levo para as minhas aulas são assemblagens feitas com pequenos objetos e papeis encontrados no dia a dia.
O pessoal gosta de deixar suas marcas com canetas pretas também.
A minha querida vice diretora me deu dois selos, um brasileiro e outro japonês.
Um para ser colado na caixa do ano passado e outro para a deste ano.
Ela sempre me traz algo personalizado para aplicar nas caixas.
Outra querida mestra também sempre encontra algo inusitado para que eu aplique na caixa.
Minha neta mais velha, noutro dia, colou uma pedra cinza que ela pegou no chão especialmente para isso.
Numa aula ela encontrou um papel com os dizeres: Vem no.
Substituiu a letra O por uma grande A e completou:
Vem na fralda.
Não por coincidência um dos personagens do seu anime favorito é o KOKOshibo.
Rio porque as pessoas confundem o significado da palavra Escatológico.
Também acho que esta palavra soa como algo afeito às nossas necessidades filosóficas conhecidas como Número dois, mas não.
Escatológico se refere ao fim dos tempos.
Enfim.
As palavras e seus significados vão me nutrindo com entrelaces de objetividades.
Claro que a minha subjetividade vai encontrando um jeito de as desembaralharem, juntando todas na busca de um sentido misterioso.
Tenho a ideia de fotografar detalhes das caixas de materiais e fazer um texto para cada fotografia.
Desde 2013 as caixas vêm se sucedendo e desde então esta ideia vem sendo alimentada.
Ainda não executada.
Juntar pedra, botão, Almanara, bom apetite, parafuso, porca, embalagens diversas, dando luz a textos com começo, meio e fim.
O fim do texto nunca termina, afinal quando parece que se findou, começam os exercícios mentais de quem os leu.
Um ciclo inevitável por mais simples, ou complexa que seja a reflexão.
Os jogos da copa do mundo mostram que saber jogar futebol todo mundo sabe, mas também mostra a diferença técnica no toque de bola vertical e conclusivo.
Adoraria ter nascido Messi, mas estou bem contente em ter nascido Betu.
Acentuar o U já se tornou digno de bola de ouro, afinal o engraçado se torna vital para o segmento desta vida cheia de momentos bem legais.
O Beto Cury com O no final, acaba sendo exatamente igual a pelo menos outros oito no Brasil.
O baterista, o político, o sobrinho, o locutor de rádio de Itapetininga, entre outros.
O mais crianção sou eu mesmo, o Betu.
Minha aluna artista perguntou:
Se eu der um Google você aparece na tela?
Fiz a experiência e a IA me disse:
Você quis dizer o Professor de Artes do Colégio Ser.
Porém ela também mostrou em segundo plano, o político que já foi secretário da Juventude do governo federal.
Rio porque concluo que a minha criancice faz ainda mais sentido.
Recebo a pelota na defesa e verticalmente caminho até a defesa adversária.
Sempre em frente e atacando os flancos.
O gol é apenas uma meta filosófica e uma ideia utópica, já que o meu campo de jogo não é gramado natural, nem artificial.
O meu campo é este, que me me faz acordar pensando numa frase:
Quais linhas este espaço de tecido pede que eu use no desenho?
Minha pergunta sem resposta.
A não ser pela minha predileção pela ação intuitiva.
O que sei é que vou compondo com espessuras de linhas diferentes para gerar um contraste de claro escuro, esteticamente agradável aos meus olhos.
Não é o fim, já que agora começa o processo de reflexão de quem vê o desenho, ou quem lê o que escrevo.
Meus fones de ouvido não perturbam minhas conversas internas.
Estas estão sempre comigo


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